Terras indígenas, terras brasileiras: panorama econômico

Seguindo as análises sobre a mudança de paradigmas a respeito da utilização das terras indígenas para fins agropecuários, após a repercussão do caso dos indígenas da etnia Pareci no estado do Mato Grosso, esta nova abordagem traz um debate econômico para melhor compreensão da situação. 
Veja aqui a parte 1: Terras indígenas, terras brasileiras: que terras são essas? Veja aqui a parte 2: Terras indígenas, terras brasileiras: panorama social 
É sempre importante relembrar que a abordagem analítica, sem cunho ideológico obedece à preceitos constitucionais de igualar as condições de desenvolvimento dos cidadãos brasileiros independente de etnia ou religião (art. 3o., IV, Constituição Federal). 
Considerações sobre os dados ECONÔMICOS e territoriais
Para responder à pergunta, utilizamos como base, uma pesquisa exemplar feita em uma dissertação de mestrado da Universidade Federal da Grande Dourados¹, cujo modelo de pesquisa deveria ser replicado em cada estado para melhor gestão de políticas públicas de atribuição territorial, evitando o enfoque meramente ideológico.
A referida pesquisa aponta que, da área total do estado de Mato Grosso do Sul (35.714.553,2 hectares), são contabilizadas 17 culturas temporárias plantadas no estado, representando 12,09% do território estadual, as mais representativas foram a soja e milho com 5,56% do território, com representatividade no Valor Bruto da Produção, ilustrada pela figura 1.
Figura 1.Culturas temporárias plantadas no Mato Grosso do Sul representadas em Valor Bruto da Produção e percentual do território do estado em hectares.Fonte: Fernando Wosgrau
Conclui o pesquisador que, dos 28 municípios identificados – o estado possui 79 municípios – e que poderiam ter parte de suas áreas destinadas aos indígenas, ocupam pouco mais de 47% da área do estado, concentrando um VBP da soja que representa 60% do VBP total produzida em todos os municípios e do milho 67% do VBP total. 
Interessante ainda notar que, a figura 3 demonstra baixíssima representatividade territorial das possíveis culturas temporárias que também poderiam ser realizadas por indígenas em suas terras, com o apoio de políticas públicas governamentais do plantio ao comércio. 
Ainda no Mato Grosso do Sul, já passa de 130 o número de propriedades privadas invadidas sem conclusão de processo de demarcação. A maioria dos municípios com este tipo de problema, certamente impactando seus índices socioeconômicos em representatividade ainda não calculada nos seus territórios, população, produto interno bruto e outros índices. E pior. 
Paranhos/MS, com área total no município estimada em 130,2 mil hectares, possui terras indígenas regularizadas e em processo de regularização com ocupação que já representa aproximadamente 24,5 mil hectares, ou seja, quase 19% do território total. Guaíra/PR possui 20% do território municipal afetado por demarcações. 
Logo, o assunto envolve, índios, proprietários, posseiros, cidadãos urbanos e rurais das redondezas, a economia, meio ambiente, desenvolvimento local, indústria, comércio, dentre uma infinidade de outros setores e pessoas impactados pelo problema que até então somente se discute de maneira polarizada entre produtor e indígenas. 
Com maior riqueza de dados, é possível então compreender a evolução do assunto frente aos índices socioeconômicos e os impactos da tão discutida ‘mudança de paradigmas’, entre dispor de terras indígenas conforme “usos e costumes” ou inseri-los na rodada de negócios em que fazem parte todas as etapas das cadeias produtivas do agronegócio.
¹ Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD. Dissertação de Mestrado “Os reflexos das demarcações de áreas indígenas sobre o valor bruto de produção da soja e milho no estado de Mato Grosso do Sul”. Disponível em: . Acesso em 18.03.2019.
 

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