Viola do século 21: inovações mantêm sentimento caipira vivo no Brasil

Instrumento é tema da reportagem dos 39 anos do Globo Rural. Nessa evolução, alguns artistas agregaram recursos eletrônicos à moda de raiz, outros tocam música erudita. Viola do século 21: inovações mantêm sentimento caipira vivo no Brasil
O Globo Rural completa seu aniversário de 39 anos neste domingo (6). E, para festejar, não poderia faltar a viola, um dos instrumentos que mais representam o campo. A esta altura do século 21, o sentimento caipira está aceso como nunca no Brasil.
Diz-se que o encanto pela viola é coisa de quem nasce, cresce, floresce e padece na roça. Não é o caso de Ernestino Ciambarella Júnior. Nascido e moldado em São Paulo, ele desenvolveu um lado músico de rua. Seja na Avenida Paulista, seja no Parque do Ibirapuera, toca o instrumento pelo qual não tinha o menor apreço quando jovem – cresceu ouvindo pop rock dos anos 1980.
Urbano, ele acabou agregando o instrumento ao sobrenome: virou Júnior Violla. Aliás, isso é tendente entre os violeiros e, especialmente, violeiras formados neste século, como a Vitória da Viola, a Pamela Viola e a Bruna Viola.
Júnior conhece, toca e ensina o repertório caipira, mas cavou um estilo pessoal com os apetrechos de guitarra, uma ousadia que os puristas acham heresia. Nos pedais eletrônicos inteligentes, grava na hora o acompanhamento, faz a percussão e, sobre essa base, faz o solo da música. Toca sozinho, mas parece que está acompanhado.
Ele, que não gostava de viola, virou um estudioso do assunto. Toma aulas na Emesp Tom Jobim, com o doutor em musicologia Guilherme Camargo.
A viola de Júnior não é convencional. Em vez de cinco pares de cordas, tem seis. Nas pesquisas que fez, ele descobriu que, apesar do que predomina hoje ser a viola de dez cordas, ela já teve 12. Tanto que a primeira dupla a gravar música caipira no Brasil, Mandi e Sorocabinha, tocava numa de doze e muitas canções antigas fazem referência aos seis pares.
Júnior prefere a de 12 cordas para ter um pouco mais de grave na execução.
Outro jovem que toca uma viola diferente é Neymar Dias. A dele tem dez cordas, mas é pequena, quase lembrando um cavaquinho. Assim como a de Júnior, foi concebida, afinada e é tocada como a viola da roça, mas toca música erudita.
Ele realizou a proeza de transcrever a obra original do compositor clássico alemão Johann Sebastian Bach, de 300 e tantos anos atrás. É música barroca na violinha caipira.
‘Neta’ da guitarra barroca
Seja grande ou pequena, de dez ou de 12 cordas, a viola é descendente da guitarra barroca, usada na Espanha nos anos 1600, instrumento que Júnior está aprendendo a tocar. Ela tinha cordas feitas de tripa, mas, em Portugal, ganhou cordas de aço, o que arremessou o som para muito mais longe.
O violão, tal como existe hoje, com cordas individuais e não duplas, como a viola, só foi criado depois de 1800.
Nas cortes europeias, a viola exigia execução refinada. Mas como um matuto dos grotões, de mãos calejadas, iria conseguir tocá-la? O maestro Rui Torneze, referência nacional na educação de orquestras de músicas caipiras, explica que o instrumento tem afinação aberta: as cordas soltas já formam um acorde. Assim dá para tocar com um dedo só.
No Brasil, a viola acabou ganhando sotaques diferentes, adaptada ao ritmo da batida dos cascos de cavalos, mulas e burros.

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