O que o tênis ensina sobre economia?


djokovic
AP
Poucos devem imaginar ícones do tênis como Roger Federer, Serena Williams, Rafael Nadal e Novak Djokovic como motivo de interesse da economia comportamental, mas a verdade é que, além de atletas excepcionais, os quatro podem ser vistos como mestres na tomada de decisões.
A vantagem de Djokovic sobre os demais tenistas, por exemplo, é saber esperar alguns milésimos de segundo a mais do que o adversário antes de bater a bola, em outras palavras, Djokovic procrastina.
Nem sempre procrastinação é atraso e perda de tempo. Algumas pessoas, principalmente as mais criativas, procrastinam para obter um melhor resultado. No caso de Djokovic, em um esporte no qual a bola cruza a quadra de um lado ao outro em meio segundo, este pequeno atraso permite ter mais tempo do que os adversários para decidir onde mandá-la de volta.
Já Roger Federer, como muitos tenistas homens, é muito mais propenso ao risco quando está perdendo do que Serena Williams e outras tenistas mulheres, segundo um estudo de Nejat Anbarci, Peren Arin, Cagla Okten e Christina Zenker, publicado em 2016 no Journal of Applied Economics.
O trabalho é um exemplo de como economistas vêm se debruçando sobre o tênis para entender mais sobre algumas de nossas escolhas. Os autores estudaram 32 partidas – 19 masculinas e 13 femininas – do Torneio de Dubai de 2013, se fixando em quanto, no decorrer dos jogos, a propensão ao risco aumentou ou diminuiu.
A competição é disputada em dois sets. Um jogador quando perde o primeiro set vai se aproximando da derrota, caso comece perdendo também o segundo set.
Na famosa Teoria da Perspectiva (Prospect Theory no original), Daniel Kahneman, ganhador do Nobel de Economia, e Amos Tversky postulam que as pessoas são muito mais afetadas pelas perdas do que pelos ganhos. Em consequência, tenistas deviam se arriscar mais quando estavam sendo derrotados e menos quando em vantagem.
Na prática isso foi verificado, atrás no placar, os homens sacavam a 1,6 km/h mais rápido do que quando estavam empatando ou vencendo um game ou um set. Entre as mulheres, o efeito contrário foi observado.
Elas não mudavam o saque quando estavam perdendo ou empatando. Mas se estavam ganhando, ao sacar, faziam a bola se mover 6,8 km/h mais lenta. Agiam assim, segundo os pesquisadores, por uma maior aversão à perda – no caso, errar o saque e dar pontos à adversária.
Uma partida de tênis exige decisões rápidas. O mesmo ocorre nas mesas de operações do mercado financeiro. Nos dois casos, sugere o estudo, homens passam a operar de maneira mais arriscada quando estão perdendo. Elas, por sua vez, quando estão perdendo são mais cautelosas, tendem a tomar menos risco.
Ninguém precisa ser um tenista para gostar de tênis ou um economista para gostar de economia. Mas o estudo de ambos demonstra como o ser humano se comporta e toma decisões conforme enfrente resultados positivos ou negativos.
Em colaboração com Alexandre Guimarães, jornalista especializado em economia comportamental

https://g1.globo.com/economia

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