'Nudge': quando a economia comportamental virou cultura pop

A economia comportamental, um ramo notável surgido há mais de quatro décadas, foi durante um bom tempo assunto de alguns poucos. Mesmo quando novos estudos provavam que, ao contrário do que previam economistas tradicionais, as pessoas tomam decisões irracionais, a discussão,com algumas exceções, ainda ficava restrita aos cursos de economia.
Isso mudou com “Nudge – o empurrão para a escolha certa”.
O livro de Cass Sunstein e Richard Thaler, que completa dez anos de lançamento em 2018, levou ao grande público a ideia de que “empurrões” – pequenas mudanças na forma como as opções de uma determinada escolha são apresentadas a um grupo – ajudam as pessoas a tomar boas atitudes.
Por exemplo, tornar toda a população doadora de órgãos a não ser que a pessoa se manifeste em contrário não violaria o direito de ninguém, todos ainda poderiam escolher ser ou não doadores. Mas ajudaria um monte de gente que gostaria de ser doador, mas por um motivo ou outro não se inclui na lista.
Não é raro que livros de divulgação de alguma área da ciência sejam lançados para uma audiência mais popular, mas é bastante raro que virem um best seller como “Nudge”, entrando na lista dos mais vendidos. E nem que receba tamanho reconhecimento – a respeitada The Economist nomeou-o um dos melhores lançamentos de 2008.
Mas o impacto maior foi nas políticas públicas. Vários governos, como o do Reino Unido, Alemanha, Austrália, Canadá, Peru e Catar, criaram departamentos e programas para promover empurrões que beneficiem a população.
O próprio Cass Sunstein chefiou no governo de Barack Obama o Escritório de Informação e Assuntos Regulatórios, encarregado de usar empurrões para melhorar os regulamentos americanos. E Richard Thaler, que até de um filme, A Grande Aposta, participou, recebeu em 2017 o prêmio Nobel de Economia.
Hoje é normal que empresas usem a ciência comportamental. A General Motors, por exemplo, adotou insights do livro para ajudar as funcionárias mulheres a optar por um programa de recursos e orientação de funcionários. Também existem os sludges, empurrões usados por empresas para nos fazer gastar mais.
É lógico que não dá para atribuir tudo a um livro. O reconhecimento de Daniel Kahneman, um nome tão importante quanto o de Thaler para a economia comportamental, veio muito antes, com o Nobel de Economia em 2003.
E os empurrões são apenas uma parte muito pequena das áreas de estudo que nas últimas décadas usaram insights de psicologia para questionar a racionalidade de muitas das nossas decisões.
A Teoria das Janelas Quebradas, de que o mínimo delito leva a delitos maiores, que é a base de muitas políticas de tolerância zero das polícias pelo mundo, é dos anos 80. Muitas vendas da Amazon se devem às sugestões de produtos ativarem o “efeito-manada”, a propensão a seguir os hábitos do grupo.
Mas se é necessário definir o momento em que a ciência comportamental foi reconhecida como parte da cultura é com a popularidade de Nudge”. É natural que quando Richard Thaer foi anunciado vencedor do Nobel, o livro tenha voltado à lista dos mais vendidos do jornal The New York Times.
Muito se critica ou mesmo entende o empurrão como uma forma de manipulação. Nada mais distante. Parte importante da ideia é a liberdade de não participar. Mas a escolha dá a todo mundo mais chance de tomar a decisão mais benéfica.

https://g1.globo.com/economia

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