Mães negras e solteiras sofrem mais com falta de saneamento e carências nas casas


Mais de 40% das negras não têm acesso a esgoto, contra 27% das brancas. Coleta de lixo e acesso à abastecimento de água também são piores. Dados do IBGE ainda apontam que o rendimento das brancas é 70% maior que o das mulheres negras. Mulheres brancas ganham 70% a mais que negras, revela pesquisa do IBGE
As famílias de mulheres negras e mães solteiras têm piores indicadores de saneamento básico e de inadequações nas suas casas que as das brancas, apontam dados do IBGE.
Mais de 40% delas não têm acesso a rede de esgoto, contra 26,7% das brancas. Os índices são também piores em relação a ausência de coleta de lixo (8,8% contra 3,7%) e de abastecimento de água (13,9% contra 9,4%).
As casas das mães negras também têm mais chance de enfrentar adensamento excessivo (11,9% contra 7,7%), que é quando mais de três moradores da casa utilizam o mesmo cômodo como dormitório.
Dados apontam diferenças nas casas das mães solteiras e chefes de família por raça
Rodrigo Sanches/G1
Os dados ainda apontam que mais da metade das casas das mães negras não tem máquina de lavar. Segundo o estudo, a falta desse eletrodoméstico é um indício de que “a população preta ou parda, em especial as mulheres, tem maior carga de trabalho doméstico, como a lavagem de roupa, entre outros trabalhos não remunerados”.
Além disso, o estudo aponta que “a população branca obtém vantagem também no tocante aos rendimentos do trabalho”. Isso porque o rendimento mensal das mulheres negras é o mais baixo do Brasil.
Segundo dados do IBGE, elas ganham R$ 1.394 por mês em média. Para ter uma ideia, os homens brancos ganham mais que o dobro na média (R$ 3.138), e as mulheres brancas ganham 70% a mais (R$ 2.379). As mulheres negras estão atrás até mesmo dos homens negros, que ganham 26% a mais (R$ 1.762).
“Esse quesito é fundamental na medida em que compõe importante fonte de renda para a aquisição de bens e serviços e para o padrão de consumo alcançado pelos indivíduos e suas famílias”, aponta o IBGE.
Rendimento médio mensal das mulheres negras é o mais baixo do Brasil
Rodrigo Sanches/G1
Os dados compilados pelo G1 e pela GloboNews são do estudo “Desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil”, lançado pelo IBGE. No próximo domingo (8), é celebrado o Dia Internacional da Mulher.
De acordo com o dados do IBGE, o Brasil tem mais de 11,4 milhões de famílias formadas por mães solteiras, sendo que a grande maioria delas é negra (7,4 milhões).
Tatiane: a dura vida de uma mãe solo
Uma dessas famílias é a da diarista Tatiane Rodrigues, 33. Ela tem dois filhos, uma menina de 11 anos e um menino de 2 anos e meio. Ela cria os dois sozinha desde quando eles nasceram. “Eu não estou com o pai da minha filha desde quando engravidei. O pai do menino, que é outro, também não cria e nunca ajudou”, conta a diarista.
Para custear a casa onde mora, no bairro da Vila Cachoeirinha, em São Paulo, a paulista faz faxina e trabalha como depiladora. “Faço o que aparece porque tenho que ter dinheiro para cuidar dos meninos. Tudo que eu pego é para eles. Não sobra muito pra mim”, diz Tatiane, que atualmente vive com a renda de R$ 700.
“Muito difícil criar e manter dois filhos, ainda mais sem ajuda de pai. Só não pago aluguel porque minha mãe me cedeu um espaço”, conta Tatiane Rodrigues.
Tatiane, mãe solo de dois, que vive com uma renda de R$ 700 mensais
Tatiane Rodrigues/Arquivo pessoal
Para a economista e mestranda em economia política mundial pela Universidade Federal do ABC Gabriela Mendes, os dados sobre as mulheres negras na economia refletem o racismo estrutural na sociedade. A economista diz que, na prática, essas mulheres ficam sobrecarregadas porque precisam conciliar uma remuneração muito baixa com as demandas dos trabalhos reprodutivos, que é o cuidado com a casa e com os filhos.
“Esse dados confirmam o quanto acentuada é essa questão da dupla jornada das mulheres negras no Brasil. Elas precisam sustentar e cuidar da casa”, afirma Gabriela Mendes.
Segundo a economista, apesar de estar mais qualificada, a mulher negra ainda continua sofrendo “discriminação salarial”.
“Existe uma situação racial também que deve ser comparada à da mulher branca. Ela [mulher negra] vai sofrer uma discriminação salarial, porque R$ 1.394 não reflete no aumento no nível global de renda. A gente vê que há mais mulheres negras qualificadas, mas elas continuam recebendo menos”, diz.
A socióloga Vilma Reis diz que não vê os números com surpresa. De acordo com ela, as mulheres negras são as que menos têm acesso a saneamento e a esgoto por causa da desigualdade.
“Pobreza no Brasil tem cor, e ela é negra. Essas mulheres que chefiam famílias sozinhas vão morar em lugares com falta de saneamento porque é o que dá para elas pagarem. O Brasil precisa enfrentar a desigualdade para isso mudar.”

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