Festa do Reinado em Bom Despacho mantém tradição religiosa do tempo dos escravos

Há mais de 2 séculos, uma vez por ano, dançadores e músicos saem pelas ruas da cidade mineira cantando suas queixas e louvando Nossa Senhora do Rosário.  Festa do Reinado de Bom Despacho mantém tradição religiosa do tempo dos escravos
Desde 1808, uma vez por ano, durante cinco dias do mês de agosto, a cidade mineira de Bom Despacho muda sua rotina por causa de uma manifestação que vem do tempo dos escravos: a festa do Reinado de Nossa Senhora do Rosário.
A cidade fica no centro-oeste do estado, a 200 quilômetros de Belo Horizonte. Tem quase 50 mil moradores e vive do comércio e da agropecuária.
Hoje organizados em grupos chamados ternos ou cortes, cerca de 1,3 mil dançadores e músicos se movimentam pelas ruas cantando suas queixas, ou louvando Nossa Senhora do Rosário e agradecendo por pedidos atendidos.
Atuam pessoas com mais de 90 anos e crianças de todo o tipo, do campo e da cidade. Bom Despacho tem até uma Associação do Reinadeiros, que tem sede própria, com cozinha e instalações para até 500 pessoas.
O coronel da reserva Benjamim da Silva Sobrinho foi guardião-guia de Moçambique, um dos cortes da festa, e escreveu um livro sobre ela. Ele conta uma história antiga, que diz que um menino filho de escravo foi buscar água e viu uma senhora com a uma criança no colo. Achou que estavam se afogando e correu para avisar na senzala.
“Chegando lá eles vieram que não se tratava de uma pessoa, e sim da imagem de Nossa Senhora do Rosário. Eles a pegaram e lá fizeram uma tapera especial para ela, simbolizando uma igreja. Passaram a rezar, e cada vez mais escravos estavam ali para rezar mais e mais e do jeito deles, batendo caixa, cantando”, narra.
Diante daquele movimento, o padre achou que o melhor lugar para a santa era na sua igreja, onde os escravos não podiam entrar. Os negros resolveram então fazer a igreja deles, dedicada à Nossa Senhora do Rosário e ali a santa se sentiu em casa.
“E aí criou-se uma sociedade, uma irmandade Nossa Senhora dos Pretos, e a partir daí é que iniciou essa Congada que vem até hoje”, conta Benjamim.
Na boca do povo, a festa tem muitos nomes. Além de Reinado e Congada, em alguns lugares é chamada de Reisado.
A história também tem a ver com Chico Rei de Ouro Preto, tido como o criador do Reinado.
Também chamado Galanga, Chico era rei de sua tribo na África e foi trazido como escravo para as minas de ouro. Um líder nato, logo comprou sua liberdade, e também a de outros escravos, e conseguiu permissão para que negros dançassem e cantassem as suas penas de acordo com as tribos de onde tinham saído.
“Assim que ele conseguiu lá na cidade de Ouro Preto, deu ordem para que a senzala também, os negros, os cativos, podiam também dançar na senzala deles”, conta Zé Chiquinho, capitão de um corte de Congo há mais de meio século.
Zé Chiquinho herdou da antepassada Terezona as histórias sobre as origens do Reinado e seu amor pela festa. Ela era do Congo e foi capturada junto com o rei Galanga, conta.
O rito da festa
No primeiro dia da festa, sempre numa quinta-feira, após a alvorada e queima de fogos, os ternos começam a se reunir na igrejinha de Cruz do Monte, que fica no alto de um espigão em Bom Despacho.
Logo, iniciam a descida, dançando e cantando, até a igreja de Nossa Senhora do Rosário. É uma memória de quando os escravos, que não podiam entrar na igreja dos brancos, fizeram sua própria igreja para abrigar a Santa.
Após a missa inaugural, há o levantamento dos mastros, indicando que a festa começou. São quatro, um para cada padroeiro: Santa Efigênia, São Benedito, Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora das Mercês.
Na festa do Reinado, a cidade fica ocupada por reis e rainhas. E é um deles, o Rei Bordão, que coordena o levantamento dos mastros dos padroeiros. “A responsabilidade do mastro é como se fosse perpétua”, conta Bento Lopes Cançado, o Rei Bordão.
Entre os padroeiros, São Benedito é muito querido. Negro, ele era cozinheiro de um convento e hoje se diz que a casa que louva São Benedito não passará fome.
Conta-se que Santa Efigênia, também negra, foi condenada à fogueira. Ergueu um braço pedindo ajuda, apareceu um anjo e a salvou. Santa Efigênia protege contra incêndio e intercede em favor da casa própria.
Nossa Senhora do Rosário é protetora dos pretos e Nossa Senhora das Mercês, dos pardos.
Com os mastros de pé, os cortes saem pelas ruas como roteiro certo: agradecer convites que receberam para cantar, dançar e comer.
Os cortes
Os cortes de Congo, com origem em descendentes de escravos de um antigo reino do país africano, são maioria na festa. Na procissão, sempre saem na frente, são o abre-caminho. Têm liberdade para usar roupa colorida, chamativa, fantasiada.
Os ternos de Congo são acompanhados de instrumentos de percussão, corda e sanfona. O capitão escolhe a música e puxa o canto, que tem um agudo final que lembra o coro da Folia de Reis. Rainhas, bandeiras, músicos, dançadores de todas as idades se posicionam e o corte ganha as ruas.
Depois dos ternos de Congo, vêm os de Moçambique, com os integrantes todos vestidos de branco, às vezes com uma faixa colorida. No Moçambique, não entram sanfona ou violão, o ritmo se baseia apenas na percussão. O pessoal procura enriquecer o som com novos instrumentos: nas mãos, as patagongas e nos pés, as gungas, tudo feito em casa. O terno tem também coral de vozes.
Na rua, os Moçambique são uma guarda pessoal de Nossa Senhora do Rosário. O andor com a imagem só se desloca com um terno de Moçambique junto.
Dona Sebastiana Silva é capitã de um terno de Moçambique e mãe de santo. Seu corte tem 30 pessoas. Ela conta que as músicas que o grupo canta são ditadas pelo espírito do avô.
Perguntada se o Reinado em Bom Despacho ajudou a acabar com o preconceito contra os negros, dona Sebastiana conta que foi ela quem levou a cultura para a cidade e que enfrentou muita dificuldade.
“Nós (os negros) viemos (para o Brasil) amordaçados e acorrentados para trabalhar. Eu sei porque acompanhei muito sofrimento. Hoje eu detesto roça, porque vi o sofrimento do meu pai, da minha mãe na fazenda. Agora a escravidão mudou de lado, porque tem palavra que dói mais que um tiro. Dói. Mas a dor passa e a gente vai em cima de novo. Vai com essa dor, mas não para, não pode parar”, diz.
Entre os grupos existem ainda os penachos, lembrando os índios e suas relações com os escravos, e um grupo de marinheiros, memória dos mares da África. Ao todo, Bom Despacho tem hoje 22 cortes: 1 penacho, 1 marinheiro, 3 Moçambiques e os demais de Congo.
O Reinado tem hierarquia e estruturas permanentes. Os reis e rainhas têm mandato vitalício, só perdem a coroa se morrerem. Há uma linhagem real com presença exclusiva de negros, criada para a chefia não branquear demais.
Outra turma fundamental para a existência do Reinado é a dos festeiros, também elevados à categoria de reis e rainhas.
“São os reis de coroa grande, aqueles que durante um ano inteiro recebem a coroa, ficam com ela em casa e se preparam para no próximo ano fazer a alimentação dos dançadores, dos capitães, de todos os cortes”, conta Robert Vieira Pontes, rei Congo e quem organiza os festeiros.
Durante todos os dias da festa, o Reinado dá comida de graça no mínimo duas vezes por dia, às vezes quatro, para 1,3 mil pessoas. E em Bom Despacho tem fila de gente esperando até dez anos para receber a coroa, para alimentar os cortes.
Leidiane Micheli é rainha festeira este ano. A motivação para ajudar tanta gente, conta, veio porque passou cinco anos tentando engravidar e conseguiu depois de fazer uma promessa para Nossa Senhora.
O domingo é o grande dia dia do Reinado. Começa com uma missa de ritos africanos: a missa conga. A porta da igreja começa fechada, já que os negros não podiam entrar. Um corte de Congo canta insistindo, tocam os sinos e a porta se abre. Mas os Congos não entram, é a santa que sai. A missa alterna os atos da igreja católica com a participação dos ternos.
Na tarde de domingo, há outro grande momento: a procissão que leva Nossa Senhora do Rosário da sua igreja, na Praça do Rosário, para a Matriz, representando sua ida para a igreja dos brancos. Fiéis conduzem os andores com os padroeiros.
Num ponto da escadaria da igreja, as coroas grandes descansam na almofada à espera de que o padre termine a passagem delas dos reis festeiros de hoje para os do ano que vem. Um tempo depois, um terno de Congo desce sozinho a avenida, com a imagem de Nossa Senhora de volta à igreja dos pretos.
Na segunda-feira é celebrada a última missa campal. O corte de Moçambique leva a imagem para o altar. Em seguida, sai de fasto da igreja, para não dar as costas para Nossa Senhora. O sinal está dado: no fim da festa, os mastros são baixados um a um e a festa do Reinado de Nossa Senhora do Rosário dos pretos de Bom Despacho termina num ambiente de alegria e de quero mais.
Veja a reportagem completa no vídeo.

https://g1.globo.com/economia

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