Executivos ajudam ONGs a melhorar gestão de negócios


Programa de mentoria da Ambev, que começou no ano passado, coloca executivos da cervejaria como voluntários que ajudam as entidades a elaborar e atingir as metas estabelecidas. Instituto Pró-Saber, em Paraisópolis, que ficou em 1º lugar no programa de mentoria da Ambev em 2018
Fábio Tito/G1
Quando Maria Cecília Lins fundou sua ONG, o Instituto Pró-Saber, há 16 anos, seu sonho era diminuir a desigualdade por meio da educação. Mas o domínio que ela tinha na área pedagógica precisava ser estendido para a gestão dos negócios da entidade.
Quando foi lançado o projeto VOA, que ajuda ONGs a administrarem melhor seus processos, orçamentos e funcionários, ela viu ali uma oportunidade para melhorar seus resultados e chegar mais perto do seu objetivo. O programa foi lançado em 2018 pela cervejaria Ambev – empresa que, há alguns anos, chegou a sofrer uma série de processos trabalhistas por práticas consideradas vexatórias.
Maria Cecília contou com a ajuda de Felipe Cerchiari, diretor de Inovações da companhia, que se dedicou o ano todo a orientá-la em como traçar as metas e os passos necessários para atingi-las. O projeto da ONG de Maria Cecília foi considerado o melhor do VOA 2018.
“A gente queria juntar a capacidade pedagógica com a excelência na área de gestão, e o programa trouxe as ferramentas necessárias, com uma pessoa te acompanhando ao longo do processo, um aprendizado mútuo”, diz Maria Cecília.
Ela se inscreveu no ano passado e concorreu com mais de 2 mil ONGs para ser uma das 185 selecionadas. Elas se encaixaram nos critérios do programa como existência mínima de dois anos, forte engajamento do responsável pela ONG, potencial de impacto social nas novas gerações, visão de futuro e comprometimento.
Maria Cecília Lins teve aulas e orientação de um executivo da Ambev para colocar programa de metas e melhoria de gestão em sua ONG
Fábio Tito/G1
Por se tratar de um programa voluntário de mentoria em gestão, funcionários da Ambev, que são executivos em diferentes áreas de atuação, ficam responsáveis por auxiliar de forma personalizada as ONGs, atuando como “padrinhos” de cada uma, acompanhando a evolução ao longo do programa.
No ano passado foram 200 voluntários. Para o programa deste ano, são 108 funcionários da empresa para atender a 54 ONGs, selecionadas entre mais de 330 candidatas. Cada organização não governamental terá a mentoria de dois voluntários.
A redução no número de ONGs de um ano para o outro é devido a uma melhor estruturação do programa para poder se expandir. “Nós só vamos aumentar quando tivermos condições para isso”, diz Bernardo Paiva, presidente da cervejaria.
O time de voluntários tem em sua maior parte funcionários com cargos de liderança. A área corporativa tem o maior número, mas há também executivos dos setores de marketing, financeiro, vendas e logística. Os voluntários se organizam dentro de sua disponibilidade para fazer os encontros no decorrer do ano com as ONGs.
Na conclusão do programa, as ONGs apresentam um projeto prático realizado com base no que aprenderam ao longo dos meses, sendo que o mais bem avaliado recebe um auxílio financeiro. De acordo com cálculo da Ambev, em 2018, as organizações participantes puderam impactar cerca de 2 milhões de pessoas após a participação no programa.
As ONGs participam ainda de aulas sobre gestão de orçamento, gerenciamento de projetos, elaboração de metas, planos de carreira, entre outros assuntos. E têm encontros presenciais e online com os mentores voluntários.
“A população tende a enxergar esses dois universos como muito distantes, mas na verdade existem mais coisas em comum do que se imagina. Muitas ferramentas de gestão podem ser aplicadas em ambos os casos, tendo sempre em mente que adaptações devem ser feitas com base na realidade de cada organização”, explica Bernardo Paiva.
Bernardo Paiva, presidente da Ambev, durante aula inaugural do VOA 2019, em maio deste ano
Divulgação/Ambev
Paiva ressalta que não só as ONGs ganham com o projeto. “O VOA humaniza a companhia. Além de nos aproximar ainda mais do terceiro setor, o programa nos traz uma nova visão sobre diversos aspectos e incentiva a reflexão sobre melhorias no nosso próprio negócio. A experiência une os funcionários, que se sentem mais motivados ao saberem que fazem parte da construção de um mundo melhor, afirma.
O programa, segundo Paiva, utiliza indicadores que medem o desempenho das ONGs, como impacto nas famílias, na sociedade e no número de alunos.
Biblioteca com 14 mil títulos em Paraisópolis
Maria Cecília Lins na biblioteca ampliada que conta com 14 mil títulos
Fábio Tito/G1
A ONG de Maria Cecília está localizada na comunidade de Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, e atende a 120 crianças de 4 a 8 anos e a 40 adolescentes de 15 a 18 anos, que estudam na rede escolar, mas frequentam a ONG como trabalho complementar, enfocando o hábito da leitura.
“A leitura é uma ferramenta para diminuir a desigualdade social por meio da educação”, defende Maria Cecília.
Com a participação no programa, a diretora executiva da ONG conseguiu alguns resultados práticos: contratou mais funcionários – oito jovens aprendizes, aumentou a estrutura do local alugando o imóvel ao lado e ampliou a biblioteca que é aberta a toda a comunidade e conta atualmente com 14 mil títulos infanto-juvenis.
Segundo Cecília, a biblioteca tinha 32 m², e o novo espaço, inaugurado em março, ficou quatro vezes maior. Além disso, a biblioteca passou a ter entrada de frente para a rua – antes ficava dentro da ONG.
Há 2 mil moradores cadastrados na biblioteca, e no ano passado foram emprestados mais de 17 mil livros, destaca a diretora da ONG.
Durante o programa, Maria Cecília teve que estabelecer metas e os passos para alcançá-las. Entre elas estão conseguir atender a metade das 5 mil crianças de 4 a 8 anos da comunidade em um período de 3 anos e levar o trabalho da ONG para outros lugares, com a ajuda principalmente dos adolescentes que são atendidos na ONG e passam por formação para se tornarem jovens multiplicadores.
“O impacto será muito maior se atuarmos nas escolas da região do que apenas na ONG”, diz.
Cecília conta que o que mais estimulou durante o processo foi o fato de o mentor fazer muitos questionamentos, mirando principalmente os objetivos da ONG.
ONG em Paraisópolis tem como missão diminuir a desigualdade por meio do hábito da leitura
Fábio Tito/G1
A diretora-executiva da ONG conta que a participação no programa de mentoria melhorou a entrada de doações, principalmente com o aumento de doadores pessoas físicas, o que possibilitará ainda a implantação de um fundo de reserva para a ONG.
“Quando você capta recursos tem que mostrar ao doador qual o ganho do que você quer transformar e o VOA trouxe ferramentas de planejamento estratégico que deram mais segurança na hora de expor ao doador os critérios transparentes de trabalho”, explica.
Segundo Maria Cecília, o programa de mentoria foi baseado em questões reais e encontrou respostas simples para os problemas, como nas áreas financeira e administrativa. “A gente olhou para os problemas, pegou a ferramenta de gestão e aplicou nas metas que a gente tinha. A gente sonhou muito alto e criou respostas para nossas dificuldades”, conta.
Mesmas ferramentas de gestão da Ambev
Felipe Cerchiari, de 34 anos, entrou como trainee na Ambev e está há 12 anos na empresa. Seu contato com o terceiro setor havia sido só na universidade. Ele conta que decidiu se candidatar a ser voluntário assim que o programa foi anunciado.
Cerchiari foi direcionado para a Pró-Saber após análise do perfil dele e da ONG. “Nesse caso, havia demandas por gestão, marketing e captação de pessoas físicas, e houve o match”, conta.
Felipe Cerchiari, diretor de Inovações da Ambev, ajudou ONG a ter melhor desempenho em programa de mentoria em 2018
Divulgação/Ambev
Segundo Cerchiari, seu principal papel foi ajudar Maria Cecília a estabelecer as metas, os prazos e a estrutura organizacional. “Ela queria transformar Paraisópolis num paraíso de leitura, mas atendia pouco mais de 100 crianças e jovens de um universo de 5 mil. Foi aí que quantificamos as ações para atingir mais gente”.
O diretor de Inovações conta que aplicou exatamente a mesma metodologia e ferramentas de gestão de negócios da cervejaria na ONG.
“Viabilizar um sonho foi inspirador, uma troca desde o primeiro dia. Eu adequava as ferramentas para os desafios dela”, diz.
O executivo afirma que a captação de recursos para a ONG subiu 50% durante 2018 com a mentoria em gestão.
“Vimos quanto precisa de caixa por ano e quanto precisa arrecadar para chegar num plano de curto e longo de prazo para mudar de patamar financeiro”, explica.
Cerchiari diz que, por não ter todas as respostas para Maria Cecília, acabou aprendendo muito ao longo do processo.
Eles se encontravam uma vez por mês, na ONG ou na própria empresa, dentro do horário de expediente dele, e havia orientações pelo WhatsApp e e-mail.
Questionado sobre as razões de a ONG que ele orientou ter sido a “campeã” do programa de 2018, Cerchiari diz que o mérito foi todo de Maria Cecília. “Pode fazer a consultoria que for, se você não estiver pronto para a transformação nada vai acontecer”, diz.
De sua parte, o diretor de Inovações considera que fez as perguntas certas de como alcançar o sonho lá na frente. “Ela estava disposta a transformar, mas sempre com pé no chão. Ela sabia das dificuldades, sempre consciente do tamanho dos passos que podia dar, nunca fazia nada sem ter o caixa e recursos disponíveis”, diz.
Cerchiari se orgulha ao dizer que em três meses a nova biblioteca já estava de pé. “Reformaram o local e o acervo aumentou muito. Tem títulos de edição limitada, todos de doações”. A mentoria de Cerchiari continua este ano no Instituto Pró-Saber. E Maria Cecília está participando do programa deste ano passando seu exemplo para as ONGs participantes.
Neste ano, as ONGs participantes de 2018 seguirão acompanhando as aulas e encontros e poderão trocar experiências com as novas selecionadas.
Aula inaugural do programa VOA 2019 com as ONGs selecionadas em maio deste ano
Divulgação/Ambev

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