Economia aponta para tempos difíceis para as grandes múltis do agronegócio

Um período recente de condições climáticas adversas prejudicou as safras de milho e soja na América do Sul e trouxe algum otimismo para as maiores tradings de commodities agrícolas do mundo. Mas, ainda que os preços desses grãos tenham reagido positivamente às intempéries na Argentina e no Brasil, ainda são grandes os desafios que empresas como ADM, Bunge, Cargill, Louis Dreyfus e Glencore enfrentam para preservar suas margens de lucro, já que produções globais robustas nas últimas temporadas ampliaram estoques e afetaram o comércio.

Como salientou o CEO da americana Bunge, Soren Schroder, as coisas não ficaram “fáceis e com grandes margens” por causa dos problemas sul-americanos. Mas houve um “movimento”, disse o executivo, e “isso geralmente é bom para companhias como a nossa”. Além do crescimento da oferta nos últimos anos, as tradings também acusaram os reflexos da desaceleração econômica dos países emergentes, principalmente a China, sobre o ritmo de avanço da demanda. O segmento fez pesados investimentos em portos e plantas de processamento, mas parte desses ativos tem operado com ociosidade.

“Não é um cenário fácil para uma trading agrícola”, disse no mês passado G. J. van den Akker, chefe da divisão de “supply chain” da também americana Cargill, maior empresa de agronegócios do mundo. Na terça-feira, foi a vez de a ADM, outra grande múlti com sede nos EUA, revelar as consequências financeiras dessas condições difíceis. A companhia informou que fechou o primeiro trimestre do atual exercício com lucro líquido de US$ 230 milhões, 53% menor que no mesmo período do ano passado, e atribuiu parte da queda ao recuo dos volumes das exportações americanas e a perdas observadas em sua mesa de negociação de commodities agrícolas.

Os traders frequentemente afirmam que prestam pouca atenção se os preços de determinados produtos estão altos ou baixos, já que estão de olho nas diferenças entre onde e quando os grãos serão comprados e vendidos. Mas a retração das cotações das commodities agrícolas nos últimos anos está encorajando agricultores de alguns países a segurarem suas produções até uma recuperação mais consistente, e isso não é bom para as tradings. E, em meio aos problemas, surgiram até casos de excesso de infraestrutura logística.

A Bunge e a japonesa Itochu, por exemplo, apostaram firmemente na demanda asiática e abriram em 2012, no Estado de Washington, o primeiro novo terminal de exportação de grãos dos EUA em 25 anos. Mas os embarques de trigo, milho, soja em grão e farelo de soja no porto que abriga o terminal diminuíram 29% por conta da retração da demanda e da alta do dólar, o que desanimou os parceiros.

Os lucros líquidos de muitas tradings atingiram seus picos entre 2010 e 2011, depois que a Rússia proibiu as exportações de cereais em resposta a uma onda de calor e abriu caminho para grandes oscilações nos preços dos grãos. A Cargill, por exemplo, registrou lucro operacional ajustado de mais de US$ 3 bilhões no exercício 2011, 38% maior que o de 2015. No último ano, a companhia centralizou a administração e reformulou sua carteira. Saiu de linhas que incluíam aço, fundos de hedge e carne suína nos EUA e adquiriu negócios onde vislumbra demanda mais forte, como ração para salmão. Na terça-feira, a múlti anunciou a venda dos negócios de condimentos, molhos e maionese.

Em resposta ao que chamou de “cenário de baixa”, a Louis Dreyfus, por sua vez, reduziu os investimentos em 30% em 2015, para US$ 420 milhões. Gonzalo Ramírez Martiarena, CEO da companhia, afirmou no mês passado que antevê grandes mudanças no mercado. “Este será mais um ano de grande oferta”, acrescentou. Mas os que apostam na alta dos preços realçam as boas perspectivas de longo prazo para as tradings. Eles afirmam que a demanda por alimentos vem crescendo inexoravelmente, aumentando a dependência mundial dos embarques de grãos. Assim, tradings com ativos difíceis de serem substituídos vão, em algum momento, se beneficiar.

Foi essa visão que ajudou a Glencore a vender no mês passado uma participação de 40% de suas operações agrícolas para o maior fundo de pensão do Canadá, por US$ 2,5 bilhões. Uma visão menos otimista sugere que as tradings agrícolas viveram um boom na década anterior devido a fatores que não deverão se repetir, como a ascensão da China à condição de potência econômica e o surgimento de políticas de apoio a biocombustíveis em diversos países.

Em outra frente, novidades como os softwares de rastreamento de navios e o acompanhamento por satélite de condições de safras também corroeram o valor do “conhecimento” das tradings sobre os fluxos das commodities, como nota Richard Payne, da Accenture Consulting, ex-executivo da Cargill. Mas, mesmo em meio a tantas mudanças, agricultores e executivos das tradings neste momento estão, como sempre, atentos ao clima, já que o plantio da safra 2016/17 de grãos no Hemisfério Norte está em andamento. E, diante de safras menores na América do Sul, as esperanças foram renovadas. Mas sem euforia. “Estamos cautelosamente otimistas”, afirmou Juan Luciano, CEO da ADM.

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