Dez anos a mil ou mil anos a dez?

Existe aquela música dos anos 80 que diz: “é melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez”.
Intensidade x frequência, o que vale mais? Muitos acham uma experiência curta, mas eletrizante, é melhor do que uma experiência mais longa e mais calma. Isso pode valer para uma paixão, tema da letra do roqueiro Lobão, mas também para produtos, viagens, eventos, etc.
E claro, também vale para a economia, já que estamos tratando do melhor uso de recursos e também de expectativas. Como as pessoas esperam desfrutar de um celular? Ou de uma viagem? Como acham que serão felizes no futuro emprego? Como ficam satisfeitas ao comprar?
Sermos mais felizes é a busca mais básica da experiência humana e essa centralidade não escapou aos estudiosos do comportamento. O psicólogo Ed Diener há décadas estuda o bem estar. Além de ter trabalhado com Daniel Kahneman, o primeiro Nobel da economia comportamental, pelas contribuições ao campo de estudo, é chamado de “doutor felicidade”.
Ele é um dos autores da expressão “Efeito James Dean”. O ator James Dean, mais de seis décadas atrás, morreu aos 24 anos no auge da carreira em um acidente de carro. Apesar de ter feito apenas três filmes, recebeu duas indicações, póstumas, ao Oscar e é listado em 18º lugar pelo American Film Institute entre os maiores astros de todos os tempos.
Quando imaginam uma vida feliz, dizem Diener e outros dois psicólogos, Ed Sandvik e William Pavot, algumas pessoas valorizam muito mais os momentos de felicidade intensa. Aí começam os problemas porque é muito raro termos momentos de felicidade intensa.
No livro Subjective Well Being – An interdisciplinary perspective (Bem-estar subjetivo – Uma perspectiva Interdisciplinar), os três autores citam um estudo que acompanhou 133 pessoas durante 42 dias. Dia após dia, elas contavam aos entrevistadores como se sentiam: às vezes muito mal, mal, um pouco felizes, muito felizes ou extremamente felizes.
Todo mundo sabe como é. Temos dias ruins, bons e médios. Às vezes piores, às vezes melhores. No caso do trabalho, foram 5.268 dias computados. Em apenas 135 (2,6% do total) as pessoas se sentiam extremamente felizes.
E não foi o pior resultado. Em outro estudo, envolvendo um total 3.214 dias, só um dia foi considerado extremamente bom. Ou seja, 0,00324% do total de dias.
A boa notícia é que os dias considerados levemente bons podem não fazer muito sucesso, mas são bem mais frequentes do que os ruins, segundo um terceiro estudo. Entre os 210 participantes, só um em cada quatro dias era citado como um dia para se esquecer.
Mas experiências extraordinárias ao menos nos tornam mais felizes?
Mais ou menos. Em um experimento de laboratório, depois de um evento muito extremo, as pessoas às vezes se sentiam menos felizes em momentos apenas satisfatórios. O mesmo não acontecia com quem apenas teve dias bons.
Não é o mesmo que dizer que não é bom ter experiências muito agradáveis. É sim. A vida seria muito pior sem elas. Mas os trabalhos sugerem que dias fantásticos não são obrigatórios para alguém ter uma vida feliz. No geral, precisamos mesmo é estar satisfeitos.

https://g1.globo.com/economia

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