Coronavírus altera coleta de dados pelo IBGE e pode ter efeitos em resultados das pesquisas

Órgão fará levantamentos remotos; especialista avalia que o órgão tem competência técnica para manter qualidade das estatísticas. A dinâmica do mercado de trabalho está sendo diretamente impactada pela pandemia do coronavírus. Com a recomendação para que a população permaneça em casa para evitar a disseminação do vírus, também há mudanças nas relações de consumo. E neste contexto, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também precisou alterar a forma de coleta de dados para algumas de suas principais pesquisa conjunturais – o que pode ter efeitos nos dados gerados.
Por conta da pandemia, o IBGE suspendeu as visitas domiciliares para a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), que faz um raio-x do mercado de trabalho brasileiro, e a coleta presencial de preços para composição do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que é a inflação oficial do país. Ambas terão as coletas de informações feitas remotamente, por celular ou internet, e essa mudança pode impactar as amostras e a série histórica de ambos os levantamentos e pesquisas relacionadas.
Em entrevista ao G1, o diretor-adjunto de pesquisa do IBGE, Cimar Azeredo, enfatizou o caráter excepcional das mudanças e ressaltou a importância da população colaborar com o órgão no repasse de informações. Questionado se haverá prejuízo às estatísticas públicas, ele disse que “a ideia é evitar que isso aconteça”.
“A gente está diante de uma pandemia, de um problema de calamidade pública, então suspender as visitas domiciliares e a estabelecimentos é uma medida excepcional, extraordinária, que visa preservar a saúde dos nossos entrevistadores e da população e, ao mesmo tempo, é uma forma de garantir a continuidade das pesquisas”, disse Azeredo.
Segundo ele, o IBGE considera que haverá dificuldade na coleta remota de informações. Por isso, pede apoio à população quando receber a demanda do órgão por entrevistas por telefone.
“Sem indicador, sem estatística, a gente não chega a lugar algum. Por isso a população precisa fornecer informações. A população precisa informar como ela está vivendo”, enfatizou.
A princípio, Azeredo considera que as mudanças não deverão ter efeito mais severos sobre as séries históricas da Pnad Contínua e do IPCA.
“A ideia é que a gente mantenha a série histórica com observação de que o dado foi feito com uma forma de coleta que não é usual. Mas é importante que a gente possa ter informação de antes, durante e depois desse processo de crise provocada por essa pandemia.
Azeredo ressaltou ainda que todos os institutos internacionais também estão promovendo mudanças nos métodos de coleta de informações das pesquisas estatísticas diante do coronavírus. “Todos estamos nos adaptando para enfrentar isso”, disse.
Impactos inevitáveis
Para o ex-presidente do IBGE, Sérgio Besserman, será inevitável que haja impactos nas pesquisas feitas pelo órgão. Ele defende, no entanto, “que o IBGE tem excelência técnica” para promover mudanças na metodologia das pesquisas sem prejudicar em excesso os resultados”.
“Os agentes econômicos, a academia, a população e, principalmente, o próprio IBGE vão precisar fazer o melhor esforço possível para, com as informações que seja possível recolher, se estime o resultado. Não será consistente em alguns casos, não será parte da série histórica em outros, mas ainda assim vão fornecer algum tipo de indicador”, disse.
Besserman ainda elogiou as medidas tomadas pelo IBGE como forma de conter a disseminação do vírus pelo país. “Todos terão perdas com essa pandemia. A civilização não passa por isso há 102 anos”, enfatizou.
Pnad Contínua terá 1º trimestre comparável
De acordo com a gerente da Pnad Contínua, Maria Lúcia Vieira, será possível ter todo o primeiro trimestre de 2020 comparável na série histórica.
“Temos o primeiro trimestre quase todo feito da forma tradicional, só com as duas últimas semanas de entrevistas feitas à distância”, disse.
É através da Pnad Contínua que se observam as mudanças no mercado de trabalho no que se refere a ocupação, desemprego e rendimento. Os últimos resultados divulgados são do trimestre terminado em janeiro, que apontou uma taxa de desemprego de 11,2%, afetando 11,7 milhões de trabalhadores, além de recorde no número de brasileiros fora da força de trabalho – 65,7 milhões.
Os resultados do trimestre terminado em fevereiro serão divulgados no dia 31 de março. Já os dados do trimestre terminado em março foram coletados presencialmente na primeira quinzena do mês. Nas duas semanas restantes as entrevistas serão feitas por telefone.
“Na Pnad contínua são feitas cinco entrevistas em cada domicílio visitado. Na primeira entrevista a gente pega o contato telefônico e mais de 90% dos domicílios têm telefone. Com a quarentena as pessoas estarão em casa, então esperamos que vai ser fácil realizar as entrevistas”, explicou Maria Lúcia.
Segundo a pesquisadora, a amostragem será mantida nestas entrevistas finais do mês de março. Já para o levantamento de dados relativos ao segundo trimestre será reduzido o questionário da pesquisa.
“Vamos manter só o núcleo básico da pesquisa, que é trabalho e rendimento, e tirar da entrevista os dados da pesquisa suplementar, que avalia as outras formas de trabalho, educação, etc”, explicou a gerente da Pnad.
Maria Lúcia ressaltou, no entanto, que outras mudanças poderão ser feitas. Ainda não se sabe por quanto tempo o país viverá sob quarentena e “as coisas estão mudando a cada passo”, conforme a pesquisadora salientou. O foco do IBGE é conseguir manter a maior robustez possível dos dados levantados.
“A gente entende que quebrar a série é muito ruim para o país e captar o impacto dessa pandemia no mercado de trabalho é fundamental, tanto no trabalho formal como no informal e entre os empregadores, que possivelmente serão os mais afetados por essa crise”, acrescentou.
Mudanças nos hábitos de consumo à vista do IPCA
Para mensurar a inflação do país, o IBGE pesquisa, mensalmente, 579 mil preços de produtos e serviços em 16 regiões do país. O coordenador de Índices e Preços do instituto, Gustavo Vitti, disse que a expectativa é manter essa mesma amostragem na coleta de informações à distância, feita por telefone e internet. Mas ele acredita que os hábitos de consumo dos brasileiros serão modificados pela crise do coronavírus, impactando o levantamento.
“Vamos buscar exaustivamente os preços de todos os produtos e serviços. Caso não tenha informação, vamos usar o método de crítica e imputação já adotado pelo IBGE”, disse.
Para compor o IPCA e demais índices de preços não são realizadas entrevistas, mas sim a coleta presencial das informações. “Vamos buscar métodos alternativos para essa coleta”, enfatizou Vitti.
Segundo ele, a maior parte da coleta presencial é feita na parte de alimentação e bebidas, tanto para consumo no domicílio quanto fora do domicílio.
“A gente vai nos principais supermercados e hipermercados, bares e restaurantes, além de feiras de rua, para levantar esses preços. Vamos ter que fazer uma adaptação neste momento. A gente vai ter que buscar nestes mesmos locais se existe a comercialização online e levantar esses preços pela internet e telefone”, disse.
Vitti ressaltou que o IBGE está trabalhando com a hipótese de que o “processo de confinamento domiciliar a que a população está sendo submetida irá alterar o que compõe a amostra da pesquisa”. Segundo ele, o órgão considera que haverá aumento de compras online e priorização dos serviços de delivery no que se refere à alimentação.
“Cada vez mais a loja física presencial vai estar fora dos hábitos de consumo da família. Agora a gente vai buscar a coleta totalmente online em estabelecimentos mais representativos da demanda, que são os supermercados e hipermercados. Evidentemente, a gente vai ter que fazer uma avaliação após o primeiro mês de coleta”, ponderou.
Vitti ressaltou que o IPCA-15, que é a prévia da inflação oficial do país, já foi apurado para o mês de março com a coleta na íntegra dos dados. O resultado será divulgado no dia 25 de março. “Para o mês seguinte, é que a gente vai estar avaliando como que esse cenário atípico estará afetando a pesquisa do ponto de vista do hábito de consumo da família”, disse.

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