Como foi ficar um mês sem redes sociais


Não ver publicações dos amigos gera ansiedade, mas também exige falar mais com eles, em vez de só ler posts. Dá para fazer uso saudável das redes e ganhar mais tempo livre. Uma campanha lançada no Reino Unido propôs um desafio a 2 mil britânicos: ficar um mês sem redes sociais. Essa ação vai além daqueles desafios que costumeiramente são lançados na internet, pois o objetivo é conscientizar sobre a epidemia de problemas causados pelo excesso de permanência online.
Mas como é passar um tempo sem utilizar as redes sociais? Eu fiz a experiência por um mês.
Não foram 30 dias sem internet ou celular. Mas, nesse período, o celular foi usado apenas para acessar sites e um programa de e-mail. Para saber as notícias, acessei os sites diretamente, sem passar por redes e evitando ler comentários deixados nas reportagens.
Ansiedade
A dificuldade em permanecer “desconectado” das redes é uma experiência individual e vai depender do quanto se usa esses canais. Quanto mais ativo nas redes, maior a dificuldade em permanecer offline.
Você se sente ansioso, principalmente pela curiosidade de conferir as publicações dos amigos.
Esse impulso tem até nome: “fomo” (“fear of missing out”). Na tradução livre do inglês significa medo de ficar de fora, explica o psicólogo Cristiano Nabuco, coordenador do programa de dependentes de internet do Ambulatório dos Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo.
O impacto do uso descontrolado de plataformas digitais e desenvolvimento de depressão é estudado há mais de uma década. Nos dois manuais mundiais usados como referência para descrever as doenças de saúde mental, já é possível conferir referências relacionadas à dependência por jogos online.
Recentemente, pela primeira vez, foi possível estabelecer uma ligação entre o uso descontrolado das redes e a depressão. Em casos extremos, a dependência torna necessário receber acompanhamento clínico e é esse trabalho que eles fazem lá no ambulatório da USP.
Tempo livre
Naquele mês desconectado, consegui possível ler 3 livros e, mesmo assim, não deixei de acompanhar as principais notícias. Também falei mais com meus amigos.
Sem as redes, tive uma dificuldade enorme de lembrar sozinho de compromissos e aniversários, por exemplo. Para tentar não deixar passar nenhum compromisso, recorri a uma agenda propriamente dita e busquei detalhes pessoalmente.
A experiência sem redes sociais também foi positiva pelo exercício de ter de buscar a informação na sua origem, em vez de me guiar pelo que foi postado ou compartilhado. Isso desperta um senso crítico baseado no discernimento pessoal sobre assuntos gerais.
Uso saudável
Não que seja necessário abandonar as redes sociais definitivamente, mas é importante aprender a administrar o tempo destinado a esse tipo de diversão.
O Brasil é um dos dois únicos países onde o tempo diário gasto nas redes sociais supera 3 horas e meia, segundo o relatório mais recente da agência We Are Social.
Não existe um número indicado como referência de permanência online, mas é possível identificar quando o tempo conectado ultrapassou o razoável. Segundo o psicólogo da USP Cristiano Nabuco, não pode haver prejuízo com as atividades cotidianas em detrimento do uso das redes sociais.
A perda de produtividade no trabalho, a redução da capacidade de concentração e o baixo rendimento escolar podem servir como sinais de alerta.
Boa parte do tempo online pode ser substituída por outras atividades de entretenimento. A leitura de livros é uma excelente opção, além de encontrar pessoalmente os amigos, etc.
Quando falta maturidade
Os jovens merecem uma atenção especial, ratifica Nabuco. Eles ainda não têm uma plena maturação cerebral – esse período é concluído após os 21 anos de idade.
Até lá, explica, o córtex pré-frontal, região responsável pelo controle de impulsos, não está completamente preparado. A implicação disso é que os jovens ainda não estão biologicamente prontos para a toma de determinadas decisões.
Para esse público, o ideal é definir uma agenda de atividades variadas, para evitar que crianças permaneçam conectadas durante horas na internet. O papel dos pais é fundamental.
Bom 2019!

https://g1.globo.com/economia

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