Como combater a desigualdade? Uma proposta de Robert Shiller

Um problema do mundo atual é o aumento da desigualdade. Isto é, a diferença entre ricos e pobres vem crescendo. Várias são as razões, entre elas a educação, mas também a tecnologia, legislação, sistema tributário, mercados, etc. De qualquer forma, o problema existe e é muito mais grave ainda no Brasil, onde a desigualdade é histórica.
Muito se discute sobre o que fazer e uma das propostas mais comuns, também aqui no Brasil, é taxar os mais ricos. Nos Estados Unidos, tem sido debatida uma taxa para fortunas acima de US$ 50 milhões. proposta da senadora democrata Elizabeth Warren, pré-candidata à Presidência.
Mas funciona? E o que a economia comportamental tem a contribuir no tema?
Quanto à primeira pergunta, Robert Shiller, ganhador do Nobel de Economia em 2013, diz que não. A proposta é um exemplo de como os políticos às vezes podem estar bem intencionados, mas entendem pouco de economia.
Não e o caso de negar o perigo da desigualdade. Shiller é um dos economistas que mais debatem o tema e no livro “The New Financial Order, de 2003, já alertava para o surgimento de uma classe de super-ricos com poder de se evadir de taxações e impor seus interesses aos das sociedades.
Mas a proposta de taxar os mais ricos a partir de certa quantia – que criticou em Davos, no Fórum Econômico mundial, na semana passada – fará, segundo ele, as pessoas desistirem de seus negócios. Atingido um dado patamar de riqueza, se os ganhos não valem a pena, os empreendedores simplesmente desistem.
A solução do economista é mais inventiva e emprestada da psicologia. Que tal aumentar as deduções que os mais ricos na população podem ter ao doar dinheiro para a caridade?
Tudo bem se para alguns super-ricos importa simplesmente acumular dinheiro, há quem goste. Mas poder pagar menos impostos pode ser um empurrão para eles doarem mais. Quem não gostaria de ser admirado como Bill Gates, que foi de criador da Microsoft para a posição de um dos maiores filantropos do mundo?
Em vez de o governo se apoderar de parte da riqueza de alguém, a proposta tem um caminho melhor, transformar o excedente de dinheiro em alas de hospitais, caridade, bibliotecas, programas de bolsas de estudos, fomento a artistas e etc.
Porém não é a única ideia do economista para combater a desigualdade. Em um célebre artigo de 2014 no jornal The New York Times, Shiller defendeu incluir na legislação várias faixas de impostos mais altos, só ativados quando a riqueza chegar a determinado patamar.
A proposta se apoia na construção temporal, o conceito da psicologia de que as pessoas reagem de maneira diferente a um evento no futuro do que irão reagir depois. É mais fácil fazer alguém aceitar mais impostos no futuro se puder adiar o pagamento hoje.
Mas Shiller também se baseia em seu próprio estudo, de 2006, junto com Len Burman, sobre como um sistema de impostos crescentes poderia ter impedido o aumento da desigualdade na economia americana a partir de 1979. Na sua proposta, as faixas avançariam até 75% dos ganhos.
Ninguém gosta de pagar imposto, mas um sistema tributário azeitado ajuda a mitigar as piores consequências da desigualdade. Deve ser visto, segundo Shiller, como um seguro contra as turbulências e as previsões catastróficas. E mudanças podem realmente funcionar se for negociada uma adaptação.
* Colaborou Alexandre Guimarães, jornalista especializado em economia comportamental

https://g1.globo.com/economia

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