Com pandemia, busca por empréstimos cresce, mas crédito bancário segue restrito e caro

Pesquisa do Sebrae mostrou que 60% dos pequenos negócios que buscaram empréstimos tiveram o pedido negado. Economistas e empresários dizem que medidas anunciadas pelo governo ainda não resultaram em maior acesso ao crédito. Apesar da série de medidas anunciadas pelo governo federal e pelo Banco Centra, empresas e donos de pequenos negócios continuam enfrentando dificuldade para ter acesso a empréstimos e a linhas com juros mais baixos.
Em meio aos impactos da pandemia de coronavírus e temor de aumento da inadimplência, os bancos estão mais seletivos e restritivos. Segundo economistas e representantes do empresariado ouvidos pelo G1, para o crédito chegar a quem precisa e com taxas e condições mais atrativas, é necessário uma maior atuação dos bancos públicos e também mais linhas garantidas por recursos do Tesouro Nacional – aos moldes da que foi criada para financiar salários de pequenas e médias empresas, e que será operacionalizada pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
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Pesquisa divulgada pelo Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) mostrou que 60% dos pequenos negócios que buscaram empréstimo desde o início da crise do coronavírus tiveram esse crédito negado.
O levantamento, que ouviu 6.080 empreendedores de todo o país, mostrou também que 88% das empresas tiveram queda no faturamento, com perda média de 75%, e que 55% delas afirmam que precisão pedir empréstimos para manter seu negócio em funcionamento sem gerar demissões.
As grandes empresas também reclamam de entraves no acesso ao crédito. “As empresas continuam com extrema dificuldade nesse sentido”, afirmou a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), em nota. “O crédito é fundamental para que as empresas sobrevivam e possam garantir os empregos durante a crise e também na volta à normalidade”.
Custo do crédito
Segundo levantamento da Associação Nacional dos Executivos de Finanças Administração e Contabilidade (Anefac), as taxas de juros das operações de crédito tiveram uma ligeira alta em março.
A taxa de juros média nas linhas para pessoa física passou de 5,76% ao mês (95,82% ao ano) em fevereiro para 5,79% ao mês (96,49% ao ano) em março. Já a taxa de juros média nas linhas para pessoas jurídicas oscilou de 3,12% ao mês (44,58% ao ano) em fevereiro para 3,17% ao mês (45,43% ao ano) em março.
Já na linha emergencial para financiar salários dos trabalhadores, na qual o Tesouro Nacional arcará com 85% dos R$ 40 bilhões ofertados, os juros são de 3,75% ao ano – taxa de juros equivalente ao CDI.
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De acordo com o diretor executivo da Anefac, Miguel José Ribeiro de Oliveira, mesmo com a queda da taxa básica de juros (Selic), atualmente em 3,75%, e com as medidas do Banco Central para ampliar a liquidez, as taxas cobradas pelos bancos nas diversas linhas seguem com tendências de alta.
“As condições de crédito pioraram, sejam na elevação das taxas de juros ,seja porque os bancos em um ambiente de maior risco de crédito estão mais seletivos e restritivos por não saberem por quanto tempo esta crise vai permanecer e os reais impactos nas empresas”, afirma Oliveira.
O que dizem os bancos
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) informa que tem atuado com o governo e Banco Central para garantir a oferta de empréstimos e ajudar as empresas e afirma que não há represamento de crédito por parte dos bancos.
Para rebater as reclamações de dificuldade de acesso a crédito, a Febraban divulgou um levantamento mostrando que o volume total de concessões de crédito e refinanciamentos superou R$ 330 bilhões no período entre 16 de março e 8 de abril, valor maior que o da média mensal registrada no 1º trimestre do ano passado, que foi de R$ 290 bilhões.
O mesmo levantamento, entretanto, informou que “os principais bancos chegaram a reportar a elevação da demanda por crédito entre 5 a 10 vezes” por parte das empresas de grande porte.
A Febraban destaca ainda que os bancos tem oferecido a possibilidade de prorrogação de dívidas e renovação de crédito por pelo menos 60 dias. De acordo com balanço divulgado no começo do mês, os bancos já receberam 2 milhões de pedidos e já prorrogaram R$ 130 bilhões em vencimentos.
“Os bancos estão totalmente focados em renegociar as dívidas e, se o quadro de piora persistir, há toda disposição para aproveitarmos a janela regulatória do BC para ampliarmos os períodos de carência e de pagamento das novas operações”, informou a Febraban em apresentação ao mercado.
A Caixa tem liderado o movimento de flexibilização de juros e contratos. O banco anunciou redução de juros, carência de alguns meses nas prestações de novos financiamentos, além da possibilidade de suspensão, por até 90 dias, nos pagamentos empréstimos de contratos antigos.
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Medidas insuficientes
O Banco Central já anunciou medidas com potencial de injetar recursos no sistema financeiro e liberar até R$ 1,2 trilhão em liquidez. Entre elas, está a liberação adicional de R$ 68 bilhões em depósitos compulsórios dos bancos, o que permite que mais recursos sejam disponibilizados para empréstimos.
Levantamento do Observatório de Política Fiscal da FGV mostra que o conjunto de ações anunciadas pelo governo até o momento para amenizar os efeitos da pandemia na economia já equivalem a 7,8% do Produto Interno Bruto (PIB), sendo que desse percentual 2,1% se referem a medidas de crédito, índice bem abaixo do desembolsado por outros países.
“As medidas fiscais anunciadas (gastos e desonerações), e em vias de implementação pelo governo brasileiro, se aproximam do que se observa em outros países desenvolvidos. As medidas de crédito, por sua vez, continuam aquém do que é necessário para evitar que as empresas (principalmente as pequenas) se estrangulem financeiramente”, afirma o estudo.
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Para o economista-chefe da Necton, André Perfeito, como o risco de inadimplência subiu muito, é necessário uma atuação mais direta do governo na oferta de crédito.
“A taxa de juros que está sendo praticada é igual a que era antes da crise. O problema é que essa taxa não é suficiente para incentivar a economia, esse é que é o ponto. Os mecanismos de mercado estão comprometidos. Teria que entrar o Estado, no sentido de jogar crédito mais barato”, afirma.
Segundo o economista Manoel Pires, coordenador do Observatório de Política Fiscal da FGV, o que está faltando no sistema financeiro não é liquidez, mas sim uma maior atuação do governo para reduzir o risco e garantir um acesso mais fácil ao crédito.
“Mesmo com liquidez, existe um receio de emprestar. De modo que os bancos só tem interesse em reestruturar as operações que já foram feitas”, afirma.
“O que se pode fazer para o risco cair é oferecer recursos do Tesouro para os bancos públicos atuarem de forma mais arrojada ou criar fundos garantidores com recursos do Tesouro para dar segurança para os bancos comerciais operarem. O Banco Central também pode entrar, comprando carteiras de crédito como o Fed [Federal Reserve, o banco central dos EUA] faz, isso está em discussão no Congresso. Mas creio que a forma mais rápida de fazer seria via Tesouro, como recentemente fez no BNDES, mas numa linha muito pequena”, avalia.
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