Colher e tomar mate sozinho: coronavírus altera cultura agrícola da Argentina


A luta contra a disseminação da doença mudou os hábitos locais e também afeta o escoamento da produção. Bautista Araoz prepara um mate em província argentina de Salta
REUTERS/Javier Corbalan
“Meninos, a partir de agora cada um traz seu prato, sua faca e seu garfo. E os mates não são mais compartilhados”.
A decisão do produtor agrícola Javier Domínguez deve ter ressoado com força entre os funcionários de sua granja localizada em Luján, na província de Buenos Aires, o distrito agropecuário mais importante da Argentina, uma das principais produtoras de alimentos do mundo.
Mas em particular, a última sentença: a restrição ao compartilhamento do mate, um bebida consumida através de um único recipiente passado de mão em mão, que é parte vital da figura do argentino.
Como em outros países, porém, o coronavírus se expande na Argentina – onde já foram registrados 1.054 casos e 27 mortes –, e a luta contra a disseminação da doença mudou os hábitos locais tanto que o caso dos produtores agrícolas e seus costumes não é uma exceção.
“Estou preocupado e por isso estamos seguindo protocolos, como por exemplo não deixar ninguém entrar, exceto aqueles estritamente relacionados à colheita”, disse Juan Minvielle, produtor no nordeste de Buenos Aires, pedindo desculpas à Reuters por não poder permitir o acesso da equipe de imprensa ao seu campo, visando evitar riscos de contágio.
No campo de Minvielle, as compras de suprimentos agora são tarefa de apenas uma pessoa, e as novas regras impedem também que alguém acompanhe o motorista da colheitadeira — a carona costuma ser um local privilegiado para se avaliar o estado das lavouras.
Enquanto isso, as dificuldades para se transferir os grãos para os portos, devido às restrições municipais ao trânsito de caminhões, obrigaram alguns produtores a armazenar os produtos em sacos, apesar de as condições climáticas não serem adequadas.
“Está se formando a tempestade perfeita”, disse Domínguez. Embora a colheita ainda não tenha começado em sua fazenda, ele afirmou que quando isso ocorrer, permitirá a entrada dos caminhões.
“As precauções devem ser tomadas, mas ninguém pode esperar que entrem em seu campo como se estivessem entrando em um centro cirúrgico”, explicou.

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