Brasileiro está mais confiante, mas incerteza com futuro da economia dificulta retomada


Índices de confiança subiram desde a eleição de Bolsonaro, mas incerteza com a agenda econômica do novo governo prejudica a retomada. Incerteza com futuro da economia dificulta novos investimentos e retomada mais forte
Divulgação
A economia brasileira enfrenta um descompasso: os índices de confiança de consumidores e empresários estão melhorando, mas a atividade ainda não tem respondido na mesma intensidade e segue com uma recuperação tímida. Na leitura dos analistas, o ambiente de incerteza provocado pela necessidade de o governo Jair Bolsonaro tirar do papel uma agenda pesada de medidas econômicas importantes tem limitado um desempenho melhor do país.
Desde a eleição de Bolsonaro, em outubro do ano passado, os indicadores de confiança passaram a subir com força, diante da expectativa de que o novo governo vai resolver a questão fiscal do país, com a aprovação da reforma da Previdência, e adotar uma agenda de perfil liberal na economia.
Os índices de confiança são monitorados de perto pelos economistas porque funcionam como um importante termômetro do desempenho do país. Em momentos de alta, revelam mais disposição dos consumidores em gastar e dos empresários em investir. Logo, na maioria das vezes, essa melhora de humor impulsiona a atividade econômica. Por ora, no entanto, a incerteza com o avanço da agenda do governo está enfraquecendo as decisões de consumo e investimento, limitando a retomada.
Esse futuro nebuloso é mensurado pelo Indicador de Incerteza da Economia, apurado pelo Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). Nos últimos meses, ele tem permanecido num patamar elevado, acima dos 110 pontos, evidenciando esse cenário de difícil retomada do país.
“Se as medidas necessárias forem aprovadas, vão garantir que as confianças continuem altas. E mais importante: elas vão exercer o seu papel mais tradicional (de ajudar na recuperação da economia)”, afirma o superintendente de estatísticas públicas do Ibre/FGV, Aloisio Campelo.
Lenta retomada
Rodrigo Sanches/Arte G1
No fim do ano passado, mesmo depois da eleição presidencial e da melhora dos índices de confiança, a economia continuou colhendo uma série de resultados frustrantes. O emprego terminou 2018 com um desempenho tímido, e a indústria registrou apenas um leve avanço.
Os analistas consultados pelo relatório Focus, do Banco Central, que apura a estimativa de uma centena de analistas para a economia, projetam um avanço do Produto Interno Bruto (PIB) de apenas 1,3% para 2018 (os dados oficiais serão divulgados no final de fevereiro) e de 2,5% para este ano. Mas, diante dos últimos resultados, algumas consultorias e bancos já estão revisando as projeções. Na sexta-feira (8), o banco Itaú reduziu a previsão para o PIB de 2019 de 2,5% para 2%.
“A confiança está vindo forte desde a eleição do ano passado e ela tem se descolado dos dados reais, especialmente dos da indústria”, afirma o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale. “Os dados de confiança pegam uma percepção geral da economia e acabam não captando algumas coisas que estão acontecendo, como a crise na Argentina, que afetou em muito a produção industrial.”
Uma análise detalhada dos índices de confiança revela ainda que a avaliação sobre a situação atual da economia permanece difícil para empresários e consumidores. Dessa forma, o que tem puxado a alta dos indicadores é justamente a expectativa com o futuro da economia.
Em janeiro, por exemplo, a confiança empresarial marcou 98 pontos. Na pesquisa, o subíndice para a situação atual foi de 90,9 pontos e o de expectativas avançou a 104,5 pontos. Entre os consumidores, essa dinâmica ocorre da mesma forma. O índice de confiança subiu a 96,6 pontos. Dentro dele, o subíndice para a situação atual foi de 76,8 pontos e o de expectativas cresceu para 110,7 pontos.
Otimismo é com o futuro
Rodrigo Sanches/Arte G1
Lenta recuperação
O descompasso entre os índices de confiança e o desempenho da economia reforça a percepção de que a saída da crise tem sido bastante lenta e de que a economia brasileira deverá ganhar tração apenas ao longo de 2019 – se as medidas econômicas forem aprovadas pelo governo.
“É uma saída da crise bem diferente das anteriores, quando a recuperação costumava ser mais rápida”, afirma a economista e sócia da Tendências Consultoria Integrada, Alessandra Ribeiro. “Isso ocorre porque, além da incerteza, o país lida com outros problemas, como a situação fiscal dos estados, que acaba retardando a recuperação.”
Se tudo correr bem, a aposta dos economistas é que a melhora da confiança tenha um impacto mais concreto na atividade por meio do crédito. Depois de anos no sufoco, as famílias começaram a reorganizar o seu orçamento pessoal, abrindo espaço para mais consumo. A taxa de juros num patamar baixo também deve ajudar a irrigar a economia com mais crédito – na quarta-feira (6), o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic em 6,5% ao ano, o menor patamar desde 1986.
“O crédito é muito importante para a demanda doméstica. Ele retroalimenta a economia com mais consumo e emprego”, diz a economista-chefe da Rosemberg Associados, Thaís Zara.
De olho na agenda
De toda as medidas da agenda do governo Bolsonaro necessárias para retomar a confiança da economia, a mais importante é a reforma da Previdência. Ela é considerada crucial para o ajuste das contas públicas. Sem a reforma, a percepção sobre a saúde da economia brasileira pode piorar, provocando uma saída de recursos do país, o que tende a desencadear uma desvalorização do real e aumento da inflação e dos juros, dificultando o crescimento da economia.
Brasil precisa de ajuste fiscal de R$ 300 bilhões
O ministro da Economia, Paulo Guedes, já afirmou que a equipe econômica espera conseguir uma economia de R$ 1 trilhão em dez anos com a proposta de reforma da Previdência a ser encaminhada pelo governo ao Congresso Nacional.
Paulo Guedes quer conseguir uma economia de R$ 1 trilhão em dez anos com Previdência
Reprodução
Para aprovar a reforma da Previdência, o governo Bolsonaro vai precisar de 308 votos na Câmara dos Deputados por se tratar de proposta de emenda à Constituição (PEC). Segundo Rodrigo Maia (DEM-RJ), o objetivo é conseguir os votos necessários em dois meses.
“A nossa estimativa é que a economia fique em compasso de espera no primeiro semestre”, afirma Alessandra, da Tendências. “Uma maior tração só deve aparecer no segundo semestre, com o andamento das reformas. A economia deve seguir numa toada gradual.”

https://g1.globo.com/economia

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