Anton Chigurh e a transição demográfica brasileira


Imagine que você encontra uma mala com US$ 2 milhões, fruto de uma transação malsucedida entre traficantes, e decide tomá-la para si. Então imagine que a partir daí um assassino passe a persegui-lo, enquanto tenta despistá-lo para ficar com o dinheiro. Você se hospeda em um hotel, ele se hospeda lá também, procurando seu quarto. Caso tente fugir de táxi, ele irá atrás de você.
Pois bem, essa é a história de Llwelyn Moss, um veterano de guerra e caçador do deserto texano, protagonista do filme “Onde os fracos não têm vez”. Seu perseguidor é Anton Chigurh, um assassino de aluguel foragido da polícia, psicopata, dono de um visual característico, com roupas pretas e penteado singular, sempre levando consigo sua arma favorita: um cilindro de oxigênio comprimido, que utiliza para arrombar portas e matar suas vítimas.
Você pode não saber, mas fora das telas de cinema, esse assassino de sangue frio atacou ou atacará todas as nações do globo, mais cedo ou mais tarde. Na vida real, Anton Chigurh não é um indivíduo, mas sim um fenômeno pelo qual todo país passará em algum momento de sua história. Fenômeno este que castiga sem clemência ou piedade, que não pode ser contido, evitado ou convencido a ter misericórdia das mal-aventuradas nações que, por uma infelicidade do destino, não estavam preparadas para a sua chegada. Vamos conhecê-lo mais a fundo:
A história demográfica dos países costuma seguir um roteiro muito parecido: em um primeiro período, o país tem elevadas taxas de natalidade e mortalidade, de modo que sua população não cresce muito. As mulheres têm muitos filhos justamente porque sabem que poucos sobreviverão.
Em 1950, cada mulher brasileira em idade fértil tinha, em média, 6,1 filhos. Alguns casos hoje são difíceis de acreditar, com mães, principalmente no interior, com mais de 20 filhos. O país era jovem porque as pessoas não viviam muito e as mães tinham muitas crianças.
Em um segundo período, à medida que se avança em termos de urbanização, saneamento e tratamento de doenças, a taxa de mortalidade do país passa a cair. Só então vem a queda da taxa de natalidade, geralmente influenciada pela educação, de forma que a população passa a crescer aceleradamente por conta dessa defasagem.
Em algum instante deste segundo período, o país entra no chamado “bônus demográfico”, expressão da qual você já deve ter ouvido falar. Trata-se da crista da onda da demografia em qualquer nação: uma janela de oportunidade na qual a chamada População em Idade Ativa (PIA), aquela entre 15 e 59 anos, passa a crescer mais rapidamente do que a população como um todo, aumentando sua fração no total.
Taxa de fecundidade total – dados da ONU
Roberta Jaworski/G1
O efeito prático disso é elevar o crescimento econômico do país, simplesmente porque há mais gente para trabalhar e mais gente entrando no mercado de trabalho.
A chamada “razão de dependência”, isto é, a fração da população que é dependente (aqueles com menos de 15 anos e mais de 59 anos), passa a cair, de forma que há um maior número de pessoas ativas para cada dependente.
Em um terceiro período, porém, a janela de oportunidade demográfica se fecha, de forma que a razão de dependência começa a se elevar. Por quê? Porque a população passa a envelhecer e, como as taxas de natalidade caíram, não há mais um grande contingente de jovens entrando no mercado de trabalho.
Razão de dependência de crianças – dados do IBGE
Roberta Jaworski/G1
Talvez você não saiba, mas o Brasil passa por uma das transições demográficas (esse processo entre deixar de ser um país jovem e se tornar um país velho) mais rápidas da história. Uma boa maneira de medir isso é a seguinte: quantos anos levaram para que a fração de idosos (aqueles com 65 anos ou mais) saísse de 7% para 14% da população total? O gráfico a seguir responde essa pergunta.
Velocidade de envelhecimento da população – dados do National Institute on Aging/EUA
Roberta Jaworski/G1
O Brasil completará em 20 anos uma transição demográfica que levou quase 120 anos na França, 85 anos na Suécia e 70 anos nos EUA. Trata-se de algo sem precedentes na história mundial. Observe mais atentamente isso no gráfico abaixo:
Fração de idosos – projeções demográficas do IBGE
Roberta Jaworski/G1
Em 2060, cerca de 1 em cada 3 brasileiros terá 60 anos ou mais! Ainda: em todas as regiões, ao menos 1 em cada 4 brasileiros será idoso, contra menos de 1 em cada 10 em todas elas em 2000.
Como Chigurh, o envelhecimento populacional não pode ser contido ou evitado. Podemos, no máximo, nos preparar para a sua chegada. E a sociedade precisa discutir como fará para custear as demandas que o envelhecimento vai impor sobre o Estado, em particular em termos de saúde e Previdência.
Artigo em coautoria com Gabriel Nemer que é graduando em economia pelo Insper

https://g1.globo.com/economia

Deixe uma resposta

*

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.