Suíços fazem funeral em montanha para geleira que derreteu


Desde 2006, a geleira Pizol perdeu entre 80% e 90% de seu volume. Pessoas participam de cerimônia para marcar a ‘morte’ da geleira Pizol no domingo (22) em Mels, na Suíça.
Fabrice Coffrini/AFP
Inspirada na ação feita na Islândia há algumas semanas, a Suíça realizou no domingo (22) um funeral simbólico pelo desaparecimento de uma das geleiras mais estudadas do mundo, a Pizol, em consequência dos efeitos do aquecimento global.
Cerca de 250 pessoas, algumas vestidas de preto, se reuniram após duas horas de trilha pela antiga geleira, localizada perto de Liechtenstein e da Áustria, a 2.700 metros de altitude.
“Viemos aqui para dizer ‘adeus'” ao Pizol, declarou Matthias Huss, glaciologista da Escola Politécnica Federal de Zurique. O pároco de Mels, a comuna onde a geleira ficava, pediu a “ajuda de Deus para superar o enorme desafio das mudanças climáticas”.
A cerimônia ocorreu na véspera da reunião especial da ONU sobre o clima, nesta segunda-feira (23), em Nova York. Vários chefes de Estado comparecerão para reforçar seus compromissos em limitar o aquecimento do planeta a até 2ºC em relação ao período pré-industrial.
Na Suíça, a montanha Pizol “perdeu tanto de sua essência que, do ponto de vista científico, não é mais uma geleira”, explicou à AFP Alessandra Degicomi, da Associação Suíça para a Proteção do Clima, uma das ONGs que organizou o velório.
Pessoas participam de cerimônia para marcar a ‘morte’ da geleira Pizol no domingo (22) em Mels, na Suíça.
Fabrice Coffrini/AFP
Os participantes, entre eles crianças, depositaram flores na montanha. Não foi instalada nenhuma placa comemorativa – como fizeram os islandeses em 18 de agosto, em memória do Okjökull, primeira geleira da ilha a perder seu status.
“Desde 1850, estimamos que há mais de 500 geleiras suíças que desapareceram completamente”, das quais apenas 50 tinham nomes, explicou Huss à AFP dias antes da cerimônia. “O Pizol, agora, não é o primeiro. Mas podemos lhe considerar a primeira geleira suíça desaparecendo que foi muito bem estudada” desde 1893, destacou.
O derretimento é incontestável: desde 2006, ele perdeu entre 80% e 90% de seu volume. Só restam 26.000 m² de gelo, “menos que quatro campos de futebol”, afirmou Huss.
Pessoas participam de cerimônia para marcar a ‘morte’ da geleira Pizol no domingo (22) em Mels, na Suíça.
Fabrice Coffrini/AFP
De acordo com a Rede Suíça de Pesquisas Glaciológicas (Glamos), o Pizol pertencia à categoria “geleiras” mesmo sendo muito pequeno.
Localizado a uma altitude relativamente baixa (de 2.630 a 2.780 metros de altitude), ele dependia da neve acumulada no inverno.
Como o Pizol, outras 4 mil geleiras nos alpes correm o risco de ter 90% de seu volume derretido até o fim do século, caso nada seja feito para reduzir as emissões dos gases do efeito estufa, responsável pelo aquecimento global, segundo um estudo da Escola Politécnica Federal de Zurique.
E, independentemente dos esforços para reduzir as emissões, os alpes suíços vão perder pelo menos metade de suas geleiras.

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