Preocupação com segurança faz militares criarem Conselho Internacional sobre mudanças climáticas


A cidade holandesa de Haia foi palco ontem (19) de uma Conferência de Segurança Planetária onde foi criado o Conselho Militar Internacional sobre Clima e Segurança (IMCCS na sigla em inglês). Segue a definição do novo órgão:
“Será uma rede permanente de líderes militares de todo o mundo que se reunirão regularmente e produzirão um Relatório sobre Clima e Segurança Mundial. A ideia é impulsionar as comunicações e políticas de apoio às ações sobre os impactos na segurança de um clima em mudança – nos níveis nacional, regional e internacional. À medida que for se expandindo, o IMCCS poderá receber novos membros e afiliações institucionais de todo o mundo. O Centro de Clima e Segurança, um instituto de políticas do Conselho de Riscos Estratégicos, com uma equipe e um comitê consultivo de altos especialistas militares e de segurança, servirá como Secretariado do IMCCS”, diz a nota de lançamento do Conselho.
A primeira pergunta que me faço é: já que eles produzirão relatórios independentes, e aparentemente não há cientistas na formação do novo Conselho, qual o papel para a comunidade internacional das descobertas científicas largamente difundidas pelo Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), criado nos anos 80 e que anualmente tem feito um relatório, função para o qual foi criado?
Como se sabe, no último desses estudos do IPCC, divulgado em outubro do ano passado, havia um alerta contundente sobre a necessidade de se provocar mudanças profundas de paradigma, incluindo a diminuição do uso de combustíveis fósseis, sob pena de não se conseguir que a Terra aqueça menos do que 1,5 grau até o fim do século. E, como também já é do conhecimento de todos os que se interessam pelo tema, até mesmo se conseguirmos ficar neste ponto, haverá impactos profundos com os quais precisamos, já, nos adaptar. As cidades costeiras – Rio de Janeiro entre elas – estão na mira principal dos riscos que o aumento do nível dos mares e oceanos já está causando (desmantelamento da ciclovia Tim Maia por causa de uma ressaca poderosa é um deles).
Mas os estudos e dados dos cientistas vem sendo menosprezados pelo presidente da nação mais rica, Donald Trump, que quer manter pé firme em seu ceticismo. Não há aquecimento global, afirma ele em vários pronunciamentos. Ao que parece, no entanto, o fator segurança começa a ser um forte divisor de águas. Não só a criação do Conselho Internacional mostra isto.
Hoje, no jornal “The Washington Post” uma reportagem mostra que a Casa Branca está montando um Comitê Presidencial sobre Segurança Climática, encabeçado por William Harper, que é diretor do Conselho de Segurança Nacional. O comitê será criado “para aconselhar o Presidente sobre a compreensão científica do clima atual, como o clima pode mudar no futuro sob influências naturais e humanas e como as mudanças climáticas podem afetar a segurança dos Estados Unidos.” Chegamos ao ponto.
Ouvido pela reportagem, o co-fundador do Centro de Clima e Segurança, Francesco Femia, disse que botar um negacionista (Harper já disse que emissões de carbono devem ser vistas como um ativo e não como poluente) para tomar conta do tal comitê seria mais ou menos o equivalente a “criar um comitê sobre proliferação de armas nucleares e ter alguém para liderar quem não acredita que existam armas nucleares”. Mas, vejam o link: o Centro que Femia criou é um dos que anunciou, ontem, o novo Conselho Militar sobre Clima e Segurança.
É importante refletir a respeito, já que estão sendo criados, pelas notícias recentes, movimentos paralelos e fortes para debater as mudanças climáticas. O argumento apresentado no site do novo Conselho é de que, na última década, “um número crescente de militares e comunidades de segurança nacional tem se preocupado cada vez mais com a mudança climática – incluindo os riscos reais que representa para a estabilidade global, conflitos e suas próprias missões militares – e começou a se organizar, dentro de seus respectivos países”.
O IMCCS surge, então, como uma espécie de catalisador desses diversos pequenos movimentos. E criaria uma instituição internacional dedicada a abordar as preocupações “muito reais e urgentes que as forças armadas têm sobre um clima em mudança”. Por sua vez, o órgão criado por Trump, não deve ser desprezado, já que tem importância no cenário internacional das mudanças climáticas.
Não posso afirmar o que não me foi revelado, mas consigo fazer alguns links porque estou imbricada neste tema. E convido os leitores a refletirem comigo, vejam só: em janeiro deste ano, uma pesquisa feita pelo Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA, na sigla em inglês), com sede na Áustria, mostrou, pela primeira vez, um vínculo causal entre mudança climática, conflito e migração. O caso da guerra na Síria é emblemático neste sentido, e sempre foi mencionado, mas nunca haviam feito um estudo que demonstrasse isto com clareza. Agora há.
“Os pesquisadores indicam que o efeito da mudança climática é ‘particularmente relevante’ no levantamento da denominada Primavera Árabe na Tunísia, na Líbia, no Iêmen e na Síria, que se sucederam entre 2010 e 2013. Na Síria, que está imersa em uma guerra civil desde 2011, a grande seca de 2007 a 2010, causada pela mudança climática e piorada pela má gestão pública, provocou uma série de colheitas ruins e o deslocamento da população da zona rural para a cidade. A população urbana passou de 8,9 milhões em 2002 para 13,8 milhões em 2010, segundo o estudo”, diz a reportagem publicada no site da Agência EFE.
No estudo, cruzaram dados do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur) sobre solicitantes de asilo em 157 países durante o período entre 2006 e 2015 com outros indicadores sobre temperaturas, precipitações e conflitos armados. E o resultado foi aquele que já se tem comentando, entre ambientalistas, há muito tempo. As evidências estatísticas comprovam a presença das mudanças climáticas, das migrações e dos conflitos agindo em conjunto também em crises no Iêmen e no Sudão do Sul.
Oxalá a entrada de forças militares na batalha que a humanidade precisa enfrentar cada vez mais fortemente contra os impactos causados pelas mudanças climáticas venha disposta a um diálogo. Não se pode desprezar as evidências científicas. Como não se pode desprezar também a força das próprias comunidades em busca de soluções para os impactos. É tempo de unir todas as forças contra o maior desafio do nosso tempo.
Amélia Gonzalez
Arte/G1

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