Países relatam barreiras para solucionar impactos das mudanças climáticas à saúde


Visitantes chegam na COP25, em Madri, nesta segunda-feira (2)
GABRIEL BOUYS / AFP
Para os representantes dos quase 200 países que estão reunidos em Madri até o dia 13 na Conferência das Partes sobre Mudanças do Clima (COP25) não se esquecerem de que há uma diversidade de valores envolvidos no debate, a Organização Mundial de Saúde lançou na terça-feira (3) um relatório.
Baseados em dados colhidos em 101 nações, os pesquisadores concluíram que os países estão se importando mais com os impactos do clima na saúde dos humanos, e esta é a boa notícia. No entanto, além das boas intenções, pouca coisa é feita.
Falta verba e investimento real nas propostas listadas pelos que responderam aos questionários. Só 38% dos países possuem um orçamento específico para implementar sua estratégia nacional de plano para mitigar os impactos, e menos de 10% canalizam os recursos para implementá-la completamente.
“A mudança climática não está apenas cobrando uma conta para as gerações futuras pagarem, é um preço pelo qual as pessoas estão pagando agora com sua saúde. É um imperativo moral que os países tenham os recursos necessários para agir contra as mudanças climáticas e salvaguardar a saúde agora e no futuro”, lembra o médico Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, no site da instituição.
Veículos são vistos em meio à poeira na paisagem de Nova Deli, na Índia
Prakash Singh/AFP
Não custa lembrar que há pouco mais de um ano a mesma OMS lançou um estudo mostrando que sete milhões de pessoas morrem, por ano, por causa da poluição do ar. A maioria, claro, em países pobres.
Dos 101 países que fizeram parte da pesquisa lançada ontem, 46 informaram sobre os empecilhos que precisam enfrentar para terem acesso ao financiamento climático para a saúde. Os três principais foram: falta de informações sobre as oportunidades; falta de conexão dos médicos e agentes de saúde com as questões climáticas; falta de capacidade para preparar propostas como são exigidas.
É preciso ter uma colaboração entre vários setores governamentais para que haja progresso no sentido de se tentar evitar impactos ainda mais fortes na saúde das pessoas. Os transportes públicos, por exemplo, precisam funcionar de forma a não liberar tantos gases no ar, o que implica em vontade política para trocar o sistema.
Redução de repasses dificulta investimento em obras de saneamento no Ceará
Kleber Gonçalves/SVM
O setor de água e saneamento precisa ser cuidado também com foco na saúde. Esta, por sinal, foi a mais forte colaboração encontrada pelos pesquisadores: 45 dos 101 países entrevistados apontaram conexão entre o setor de saúde e o de água e saneamento.
A agricultura também precisa andar junto, evitando por exemplo o uso abusivo dos agrotóxicos nos alimentos que vão à mesa dos cidadãos. Mas somente 31 países fazem esta conexão, assim como um quarto ou menos dos países relataram ter um acordo entre o setor de saúde e o transporte.
Os pesquisadores foram desvendar as 41 estratégias apresentadas como plano nacional de saúde e mudança climática, mas não ficaram totalmente satisfeitos com o resultado:
“Houve a indicação para fortalecerem a consistência e o conteúdo dos planos. Somente oito dos 45 países que têm tal plano relataram um alto nível de implementação”, diz o relatório, mostrando a enorme distância entre intenção e gesto, comum nas políticas de governos pouco comprometidos com o cidadão.
Secretário-geral da ONU cobra países na abertura da COP-25, em Madri
E é claro que a dificuldade de cumprir os requisitos para obter a verba do financiamento foi apontada por todos como uma grande barreira. Menos de 40% dos países, ou seja, 17 entre os 45, indicaram que seu orçamento atual de saúde consegue cobrir total ou parcialmente os custos estimados da implementação das principais prioridades descritas no papel.
Ao menos 40% dos países (39 entre os 101) indicaram que está em andamento a formatação de um currículo nacional, para os profissionais de saúde, sobre os impactos das mudanças climáticas na saúde da humanidade.
Durante a pesquisa, os estudiosos identificaram várias doenças sensíveis ao clima, sendo que aquelas transmitidas por vetores, água suja e alimentos inadequados são as mais citadas, em quase 28 dos 31 documentos avaliados.
As outras são lesões diretas causadas por chuvas e ventos fortes, mortes e doenças relacionadas ao calor, que ocuparam dois terços dos documentos. A saúde mental foi a menos referenciada, apenas em seis documentos.
Se você, caro leitor, está se perguntando como as mudanças climáticas podem interferir na saúde mental, tente se imaginar no lugar de pessoas que precisam deixar tudo para trás por causa de uma violenta seca ou de uma violenta tempestade em sua região. Não são poucos os casos de depressão entre esses migrantes.
Diante das conclusões tiradas pelos pesquisadores, a Organização Mundial de Saúde faz sugestões aos países. É preciso, por exemplo, incluir saúde nos setores que são determinantes: transporte, energia, agricultura, água, saneamento e gerenciamento de águas residuais.
Isto quer dizer que nenhum plano de transporte de uma grande cidade, por exemplo, pode ser levado a cabo sem considerar a poluição do ar. Se há mais partículas do que o que o pulmão aguenta respirar, é preciso parar tudo e reorganizar o setor. Nada, absoluta e rigorosamente nada pode ser mais importante do que a saúde das pessoas. E isto faz todo o sentido.
A OMS sugere ainda que se ponha em discussão as barreiras para acessar o financiamento climático internacional para adaptação e mitigação de impactos à saúde humana. E é preciso criar um sistema de alerta precoce para proteger populações dos riscos provocados pelos eventos extremos ou não. Como exemplo, a balneabilidade das praias precisa ser sempre corretamente informada e tem que exigir que os cidadãos respeitem a informação. Chuvas fortes fazem mudar este quadro.
A Conferência das Partes sobre o Clima pode não ser muito eficaz na hora de tomar decisões. Mas é um momento único para se pôr holofotes sobre um tema tão indispensável à civilização atual.
Initial plugin text

Deixe uma resposta

*

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.