O que faltou dizer na manifestação que parou a Semana de Moda em Londres


A desenhista de moda e co-fundadora da ONG Extinction Rebellon, Clare Farrell, disse ontem à reportagem do britânico “The Guardian” que o consumo global de roupas dobrou nos últimos 15 anos. Como também as pessoas não parecem interessadas em reutilizar roupas – atitude que, segundo os dados computados pela organização diminuiu em 36% – o setor de vestuário está emitindo cerca de 1,2 bilhão de toneladas de gases do efeito estufa por ano, o que supera a emissão causada pelos voos internacionais.
A declaração de Farrell foi dada durante uma manifestação feita por dezenas de pessoas que interromperam o terceiro dia da Semana de Moda de Londres. Modelos se misturaram aos manifestantes, carregando cartazes que continham as mensagens apocalípticas de sempre quando o assunto é meio ambiente. Tipo: “Mudança climática = assassinato em massa”.
A voz corrente entre os manifestantes era de que, apesar de a moda pontuar sempre a tendência do momento, na verdade só agora, passados longos anos de avisos científicos sobre a mudança do clima, é que as autoridades do assunto se deram conta. Será? Uma estudante francesa, de moda, disse à reportagem que as “marcas de moda rápida, como a Zara, têm um impacto enorme, e os manifestantes estão certos que a indústria precisa mudar.”
“Não precisamos comprar roupas novas e baratas”, disse ela. Compre em lojas de segunda mão e use vintage. Moda não é só sobre você, é sobre todos nós. Se todos nós mudarmos juntos, isso terá um grande impacto” disse Roxanne Murray, outra manifestante.
Não houve prisões, correu tudo bem na tarde de protestos contra a moda em Londres. Mas faltou dizer muita coisa.
É importante baixar as emissões de gás carbono, e quanto a isso só há dúvidas entre os negacionistas do clima. Mas quando se fala em desenvolvimento sustentável, não só o abuso cometido pelos humanos ao gastar mais e mais combustíveis fósseis entra em questão, como se sabe. É preciso considerar também o lado econômico e o social.
Neste sentido, vale visitar uma notícia do dia 14 de janeiro, no mesmo jornal “The Guardian”, dando conta de outra manifestação, feita no continente Asiático. Foi em Bangladesh, país para onde converge grande parte das grandes marcas de roupas que querem aproveitar a mão de obra barata. Milhares de trabalhadores de vestuário foram às ruas para protestar, justamente, contra os baixos salários que recebem para confeccionar roupas que são vendidas por preços bem caros nas boutiques espalhadas mundo a fora.
Recentemente, tivemos o rumoroso caso das Spice Girls, conjunto pop inglês, que mandou fazer camisetas de uma campanha para estimular o empoderamento feminino em fábricas de Bangladesh. Não deu outra: as peças eram costuradas por mãos femininas que trabalhavam em situação análoga à escravidão.
Por essas e outras, eu diria muitas outras, os trabalhadores de Bangladesh aproveitaram o primeiro mês do ano para marcar sua posição. Ficaram uma semana parados, milhares foram para as ruas. E, como sempre acontece, o movimento foi violentamente interrompido pela polícia local, com canhões de água e gás lacrimogêneo, quando entraria na segunda semana. Uma pessoa morreu. Ao todo, 52 fábricas fecharam as portas devido aos protestos.
São 165 milhões de pessoas, atualmente, trabalhando com vestuários no país, aquecendo a economia emergente do Sul da Ásia, segundo a reportagem do “Guardian”. O site da associação da indústria têxtil, a Bangladesh Garment Manufacturers (BGMEA), mantém um relatório feito pela McKinsey em 2011 que cita o Goldman Sachs para dizer que aquele país está entre os onze listados pela organização financeira que podem vir a acompanhar o desenvolvimento dos BRICS. E o JP Morgan lista Bangladesh entre suas economias emergentes nas quais vale a pena investir.
Em abril de 2013, um grande incêndio matou quase mil pessoas na capital, quando um prédio de oito andares que abrigava fábricas de roupas desabou. E o setor começou a ser mais visto, mais policiado. Nem assim, porém, as coisas melhoraram.
De verdade, o setor de vestuário vem sendo vítima do sistema econômico que exclui mais do que inclui, há séculos. Em “Os trabalhadores” (Editora Paz e Terra, 2000), Eric Hobsbawm conta que “Os exércitos de costureiras cosendo camisas de algodão em seus sótãos por centavos por semana pertencem tanto à história do crescimento na indústria do algodão como as fiandeiras à máquina nas fábricas ou os escravos negros que aumentavam aos saltos a produção de algodão virgem nos estados do sul da América”.
Eis aí fortes motivos para que os manifestantes em Londres ampliassem seu protesto, focando também nas fortes questões sociais que estão envolvidas quando se trata de tais trabalhadores. Mas, de qualquer maneira, valeu pôr holofotes sobre um setor tão vulnerável. Até porque, o grupo de manifestantes também discutiu como o órgão do setor poderia usar sua influência para transformar a moda em uma força de mudança cultural que pararia a tendência de consumo excessivo e responderia à “ameaça urgente e existencial da mudança climática”.
“Embora a indústria da moda não seja responsável pelo sistema insustentável existente, é um fator-chave das tendências globais e uma fonte significativa de devastação ecológica”, definiu Clare Farrell.
Depende também de nós, cidadãos que consumimos as roupas, uma atitude diferente. Há alguns grupos que costuram roupas feitas de outras roupas, um conceito interessante mas ainda distante do grande público por conta dos preços. Existem opções de brechós, onde se compra roupas usadas, muitas das vezes com uma boa economia para os usuários.
E o que fazer com as centenas de milhares de mãos que costuram e dependem deste trabalho para garantir sobrevivência? Pensar em projetos que possam dar-lhes mais dignidade no trabalho é um bom caminho.
Amélia Gonzalez
Arte/G1

Deixe uma resposta

*

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.