O dia em que a cidade se tornará vitrine pelas ações a favor do meio ambiente e das pessoas


Pior chuva dos últimos 44 anos causa estrados e dezenas de mortes no começo do mês. O símbolo da tragédia na região é o deslizamento no Morro do Bumba, em Niterói, em área onde casas foram construídas sobre um antigo aterro sanitário
Carlos Ivan/Agência O Globo
Escrevo já sem ouvir o barulho da chuva, ou seja, o céu serenou. Uma amiga, que estava num shopping do Leblon com a cachorra e a mãe, na noite trágica de segunda-feira (8), conseguiu se abrigar na casa de um primo; outro amigo, que atravessava a Ponte e ia para a Lagoa, parou no Flamengo, achou abrigo num hotel; uma terceira passou a noite numa loja. Fui acumulando, abrigada em casa, os relatos de pessoas próximas e me apaziguando, ao menos, um pouco.
O tanto que dá para se acalmar diante de uma tragédia tão intensa, da qual não temos mesmo a dimensão real. Lembro-me da música do Chico Buarque, “Notícia de jornal”, que diz: “A dor da gente não sai no jornal”. Perder tudo de uma hora para outra, sendo pobre ou rico, deve dar uma sensação de muita impotência.
Não fiquei imune à reclamação dos moradores de áreas pobres, para quem todos só dão importância à Zona Sul e Barra. Estão certos, até mesmo quando dizem que só foi decretado ponto facultativo por causa disso. “Se o maior problema fosse na Pavuna, a gente ia ter que trabalhar de qualquer jeito, ou ser descontado”, disse uma moradora à reportagem do “Globo”.
Pessoas passam ao lado de trecho destruído da ciclovia Tim Maia, no Rio de Janeiro, após fortes chuvas
REUTERS/Sergio Moraes
E só agora consigo juntar pensamentos, muitos de revolta. Grudei na cobertura televisiva, dei atenção a todas as entrevistas do prefeito, de meteorologistas. Em nenhum momento ouvi o que seria óbvio ouvir: que as alterações climáticas estão acelerando e dando mais força aos eventos extremos. Em vez disso, a negação. O prefeito chamou a chuva de “atípica”, o que não é, como bem mostra a reportagem feita pelo G1.
Em épocas passadas ainda não se tinha informações necessárias, ainda não se conhecia a fundo os impactos das atividades humanas no meio ambiente. Hoje, sim.
E os novos tempos exigem que a gente junte esforços para mudar o foco da administração de grandes cidades, sobretudo as litorâneas. Não se ocupa mais uma cadeira de prefeito de uma cidade como o Rio de Janeiro sem atentar para isto. O alcaide precisa saber – e se preparar – para os eventos extremos que ocorrerão cada vez mais e mais fortes. E os eleitores têm que cobrar dele este conhecimento.
Quando a cidade se preparou para as Olimpíadas de 2016, teve dinheiro para fazer obras. Uma delas pelo menos, a do minhocão da Barra mostrou que não foi feita para aguentar chuva forte. Naquele tempo, três anos atrás, um clima de euforia estava no ar, a cidade se transformara em “cidade vitrine”.
O termo é usado por Álvaro Ferreira em seu livro “A cidade no século XXI” (Ed. Consequência, sobre o qual me refiro neste post, de cinco anos atrás. Trata-se de um fenômeno que o autor descreve como uma “política empreendedorista dos governantes de cidades, que se sentem pressionados a oferecer as melhores condições empresariais, investindo em infraestrutura ligada às atividades turísticas, muitas vezes aproveitando-se de eventos internacionais.”
É bom receber turistas, é bom atrair investimentos, mas tudo isso, se feito com mais responsabilidade, respeitando as leis da natureza e tendo cuidados com as pessoas, não nos deixaria hoje de pires na mão. Poderíamos ser uma “cidade vitrine”, por exemplo, pelos cuidados com o meio ambiente, por estarmos tirando carros das ruas e oferecendo transporte público de qualidade para as pessoas. Sim, VLT e BRT foram boas tentativas. Mas, sem investimento de manutenção necessário, têm causado problemas.
E nem é preciso falar sobre a ciclovia da Niemeyer, também construída às pressas para mostrar aos turistas nosso maior cartão postal, que vem caindo aos pedaços pondo em risco as pessoas.
Poderíamos, também, estar cuidando do nosso lixo sem deixá-lo grudar nos fundos da Baía.
Gosto de trazer o exemplo de Estocolmo, na Suécia, que em 1972 sediou a primeira grande Conferência Mundial do Clima. Anos depois, os partidos políticos do país se negaram a lançar a candidatura da cidade para sediar as Olimpíadas de 2022. Com o apoio do primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt, e do próprio prefeito da cidade, o argumento foi de que Estocolmo tem assuntos mais urgentes para tratar e a conta dos gastos para realizar o evento na cidade seria alta demais. Sim, é possível argumentar que o país é um dos mais desenvolvidos, não precisa de dinheiro. E eu devolvo com a reflexão: de que adiantou todas as divisas que entraram durante as Olimpíadas, no Rio, se hoje falta dinheiro para o mais básico, que é cuidar da cidade para que ela não sofra tanto com as chuvas intensas?
Aos negacionistas, àqueles que não querem dar valor às mudanças climáticas, lanço informações. Os próprios meteorologistas, que ontem durante as entrevistas se esquivaram de falar em aquecimento global, talvez tenham se esquecido de que há sete dias, não mais do que isso, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) lançou um relatório em que constata que 62 milhões de pessoas foram fortemente impactadas pelas mudanças climáticas somente em 2018.
Inundações, ondas de calor e as correntes de frio prolongadas vão devastar ainda mais vidas, segundo o relatório que traz minúcias sobre um fenômeno que ontem, ainda durante as entrevistas, foi dito sem dar a ele muita importância. As águas do Atlântico, mais quentes do que de costume, já estava deixando alguns profissionais da meteorologia em alerta desde o fim de semana que passou.
Notícia ainda mais atual, divulgada ontem no site do britânico “The Guardian” dá conta de que dois terços nas geleiras dos Alpes vão desaparecer até o fim do século. E que metade do gelo das quatro mil geleiras da cadeia montanhosa terá desaparecido já em 2050, portanto quando as crianças nascidas agora tiverem cerca de 30 anos de idade. O que isto tem a ver com nossa rotina? A explicação é dada pelos pesquisadores: “A perda das geleiras teria um grande impacto na disponibilidade de água para a agricultura e a hidroeletricidade, especialmente durante as secas, e afetaria a natureza e o turismo”.
É preciso fazer mudanças no nosso modelo atual de civilização para poder enfrentar esses desafios. E as grandes cidades têm que fazer parte dessas mudanças. Podemos começar a pensar – ainda há tempo! – em nos tornar modelo para um estilo de vida diferente, em atrair visitantes para ver como mantemos livre de risco as nossas encostas, as nossas costas, respeitando a beleza que o Rio de Janeiro oferece. É um sonho, considerando o fato de que, desde as campanhas eleitorais, este assunto nem chega a ser ventilado, muito menos questionado pelos próprios eleitores.
Mas sonhar é necessário. E que a gente sonhe alto, para poder realizar, pelo menos, um pouco.

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