Futuro líder do Xingu diz que maioria dos indígenas é contra abrir terras para mineração


Em conversa com o G1, nos bastidores do Sínodo da Amazônia, Tapi Yawalapiti defendeu o direito de cada povo decidir quais atividades exercer em seus próprios territórios. Tapi Yawalapiti durante o Sínodo da Amazônia, ao lado de Papa Francisco
Tapi Yawalapiti/Arquivo Pessoal
Diante da proposta do governo do presidente Jair Bolsonaro de ampliar o acesso de mineradores às terras indígenas, o futuro líder do Alto Xingu, Tapi Yawalapiti, afirma que a maioria das comunidades é contra. Nos bastidores do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia, no Vaticano, Tapi declarou ao G1 que cada povo tem o direito de decidir quais atividades exercer em seus próprios territórios.
Tapi, que tem 41 anos, é filho do cacique Aritana Yawalapiti, atual líder do Alto Xingu e colega do cacique Raoni Metuktire, líder do Baixo Xingu. Como Aritana está doente e o filho de Raoni não assumiu a militância política da causa indígena, Tapi foi escolhido por ambos os caciques, já idosos, como sucessor na defesa dos povos do Xingu.
“A gente não pode dizer que todos os indígenas aceitam a mineração em suas terras”, afirmou.
O Alto Xingu inclui 16 povos, entre originários e transferidos de outras regiões, totalizando 9 mil pessoas. No Baico Xingu, dominado pelo povo caiapó, há entre 11 e 12 mil indígenas.
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Consulta aos povos
Por outro lado, ele reconhece que alguns povos têm poucos recursos e acabam se abrindo à mineração, à agricultura e outras atividades com viés comercial. “Tem o indígena que quer explorar a riqueza da sua terra e tem o indígena que quer preserva sua terra. Mas os que querem é minoria. A maioria quer manter a floresta em pé, se preocupando com o futuro do seu povo.”
Segundo ele, seria preciso convocar uma espécie de “conselho” entre os povos indígenas do Mato Grosso para que cada um manifeste seu posicionamento sobre o tema – um diálogo interno que Tapi Yawalapiti considera necessário e que ainda não é feito – mas, em sua visão, o principal é não permitir que o futuro das terras seja decidido sem a participação de cada comunidade.
“A gente não sabe mexer na tecnologia como nossos parentes. Alguns já vêm plantando soja, arroz, usando a tecnologia na sua área. Mas na minha região ninguém sabe. Quem vai plantar pra nós?”, questionou. “E na nossa cultura, a gente planta pra consumir, não para comercializar. A gente planta nossa roça. Diferente de desmatar para poder vender o que plantou.”
Relação com a Igreja Católica
Tapi Yawalapiti está participando do Sínodo dos Bispos nesta semana, juntamente ao cineasta Jean-Pierre Dutilleux, que fez um documentário sobre a vida do cacique Raoni. Ambos acompanharam Raoni em visita ao Papa Francisco, em maio deste ano. O cacique era um dos favoritos para vencer o prêmio Nobel da Paz deste ano, mas quem levou foi o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali.
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Segundo Tapi, ele veio ao Sínodo para pedir ajuda. “Precisamos de recursos humanos e financeiros para preservar nossas terras”, declarou. Embora ele diga que nem Aritana nem Raoni permitam a entrada de religiões nas comunidades do Xingu, a relação com a Igreja Católica tem sido boa.
“Fico preocupado com a destruição que se aproximou da nossa reserva. Já foi destruído até o nosso limite. Dei esse recado aqui [em Roma] e precisamos de ajuda da Igreja para proteger o nosso território. Precisamos do apoio de todos. Por isso eu e cacique Raoni fizemos campanha na Europa”, comentou.
Tapi contou, ainda, que está estudando linguística na Universidade de Brasília para poder ter um conhecimento maior “sobre o mundo não indígena”, algo que nem Raoni nem Aritana fizeram. “Raoni é como um vovô para mim. Ele falou que vou ser o sucessor e estou sendo preparado para representar todo mundo do Xingu e o povo caiapó.”
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