Demissão de chefe do Inpe é 'significativamente alarmante', diz diretor da Nasa


Para Douglas Morton, dados do instituto são ‘inquestionáveis’ e representam ‘verdade inconveniente’ para presidente Jair Bolsonaro. Desmatamento da Amazônia: floresta brasileira perdeu 20% de sua área desde 1970
Reprodução GloboNews
A demissão de Ricardo Galvão do comando do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) é “altamente alarmante”, pois “reflete como o atual governo brasileiro encara a ciência”.
A opinião é de Douglas Morton, diretor do Laboratório de Ciências Biosférias no Centro de Voos Espaciais da Nasa, a agência especial americana, e professor-adjunto da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos.
“O Inpe sempre atuou de forma extremamente técnica e cuidadosa. A demissão de Ricardo Galvão é altamente alarmante”, diz Morton por telefone à BBC News Brasil.
“Não acredito que o presidente Jair Bolsonaro duvide dos dados produzidos pelo Inpe, como diz. Na verdade, para ele, são inconvenientes. Os dados são inquestionáveis”, acrescenta.
Morton vem acompanhando de perto o Brasil nos últimos 18 anos, com foco especial nas fronteiras agrícolas na Amazônia e no Cerrado e na dinâmica do desmatamento, degradação florestal e manejo agrícola após conversão florestal. Em seu laboratório na Nasa, ele conduz pesquisas ecológicas em grande escala usando dados das plataformas aéreas e de satélite, modelos de ecossistemas e trabalho de campo.
Para Douglas Morton, dados do instituto são ‘inquestionáveis’ e representam ‘verdade inconveniente’ para o presidente Jair Bolsonaro.
Talita Baena/Ascom Ufopa
“O processo de análise de imagens de satélite providas por agências espaciais como a Nasa é feito com a mais absoluta transparência e imparcialidade pelo Inpe. O instituto tem prestígio internacional e sua equipe conta com funcionários gabaritados. Os dados são checados e rechecados antes de serem divulgados”, defende Morton.
“Neste sentido, a demissão de Galvão choca a comunidade científica pois envia um alerta sobre como o atual governo brasileiro encara a ciência”, acrescenta.
Morton observa ainda que, apesar de a metodologia na leitura dos dados sobre desmatamento poder variar de acordo com o organismo responsável pela análise, as discrepâncias são “muito pequenas”.
Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, cortou qualquer interlocução do Ibama e do MMA com o Inpe, disse Galvão em entrevista à BBC News Brasil
Renato Costa/Framephoto/Estadão Conteúdo
“Os dados usados pelo instituto e outras organizações são baseados em imagens de satélite. O que varia é a forma como esses dados são processados. Mas não há nenhuma diferença fundamental no tocante à metodologia que justifique colocar em dúvida as informações divulgadas pelo Inpe”, diz.
Morton explica que a Nasa apenas fornece as imagens e não faz nenhuma análise sobre cobertura florestal no mundo. Cabe a especialistas como ele e organizações especializadas observar esses dados e avaliá-los.
As informações sobre desmatamento na Amazônia produzidas pelo Inpe são veiculadas por dois sistemas – Deter e Prodes. Esses dados são públicos e podem acessados pelo portal TerraBrasilis.
O Deter – levantamento rápido de alertas de evidências de alteração da cobertura florestal na Amazônia – é baseado em imagens dos sensores WFI, do satélite Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (CBERS-4) e AWiFS, do satélite Indian Remote Sensing Satellite (IRS).
Já o Prodes gera as taxas anuais de desmatamento na região e utiliza imagens de satélites americanos da classe LANDSAT.
Bolsonaro acusou Galvão de estar a serviço de ‘ONGs internacionais’
Adriano Machado/Reuters
Demissão
Na última sexta-feira (2 de agosto), Ricardo Galvão foi exonerado do cargo de diretor do Inpe após atritos com o governo.
Segundo afirmou Galvão em entrevista à BBC News Brasil, a crise que culminou em sua demissão foi fruto de um longo desgaste com o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) – o ministro chegou a anunciar que poderia contratar uma empresa privada para substituir o Inpe no monitoramento.
O ex-diretor disse ainda que o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, ignorou alertas feitos por ele desde janeiro deste ano, de que havia um problema de interlocução entre o Inpe e Salles.
O físico Ricardo Galvão, 71 anos, é membro da Academia Brasileira de Ciências
TV Vanguarda/Reprodução
A crise se tornou mais aguda a partir do dia 19 de julho, quando o presidente Jair Bolsonaro pôs em dúvida os dados do Instituto e disse que Galvão estaria “a serviço de alguma ONG”.
No dia seguinte, o diretor do Inpe concedeu entrevista defendendo as informações produzidas pelo instituto e criticando as declarações do presidente. Finalmente, na manhã da sexta-feira (02), Galvão foi informado por Marcos Pontes de que seria demitido.
Galvão foi nomeado diretor do Inpe em 2016 por Gilberto Kassab, que comandava à época o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações Comunicações (MCTIC). Antes disso, era professor titular da USP e presidente da Sociedade Brasileira de Física. Também é membro do conselho da Sociedade Europeia de Física e ex-diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas.
O ex-diretor do Inpe é graduado em engenharia de telecomunicações pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em engenharia elétrica pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e doutor em física de plasmas aplicada pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), com livre-docência em física experimental pela USP (Universidade de São Paulo). É membro titular da Academia de Ciências do Estado de São Paulo e da Academia Brasileira de Ciências (ABC).
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