Comunicado final do G20 não fará menção ao Acordo de Paris para não desagradar Trump


Só neste ano já ocorreram mais de 200 eventos extremos em todo o mundo; em fevereiro, fortes nevascas com ventos fortíssimos transtornaram a vida dos britânicos, e neste mês a California sofreu o incêndio mais violento da história do estado. Ontem (27), a Organização Meteorológica Mundial da ONU divulgou um comunicado alertando a população mundial de que existe uma forte probabilidade –75 a 80% – de que um evento El Niño de aquecimento climático no ano que vem pode afetar bastante os padrões de chuva e temperatura em muitas regiões, com consequências importantes para a agricultura e a segurança alimentar, e para o gerenciamento dos recursos hídricos e da saúde pública.
O El Niño é um evento natural – trata-se do aquecimento superficial do Pacífico tropical, fenômeno que se estende da América do Sul até a Austrália – mas já há evidências científicas de que ele é ampliado pelas mudanças climáticas. O El Niño de 2019 não será tão forte quanto foi em 2016, mas é preciso ficar atento a ele porque mexe com questões sérias, que põem em risco a qualidade de vida dos humanos. Tempestades fortes são esperadas, trazendo com elas toda a sorte de problemas que conhecemos bem.
Assim mesmo, com expectativas sombrias e a certeza de que será preciso um forte compromisso do setor público para amenizar as trágicas consequências de mudanças do clima, a reunião do G20 que reúne os chefes de estado de 19 países mais a União Europeia, com início marcado para sexta-feira (30), não terá um pronunciamento final em que os líderes se mostram preocupados e a fim de apoiar o Acordo de Paris. Como se sabe, este acordo foi conseguido em 2015 entre os 194 líderes de nações como uma proposta conjunta de tomar iniciativas que sirvam para impedir o aumento da temperatura da Terra além de 1,5ºC no fim do século.
O tema não será exposto, pelo menos não de maneira tão contundente quanto os ambientalistas desejariam, para não criar uma situação constrangedora com relação ao líder da nação mais rica, Donald Trump, que se autointitula um cético do clima. Por mais que evidências científicas já tenham comprovado a relação direta entre o aquecimento global e os impactos causados pelas ações do homem no meio ambiente, Trump se recusa a admitir. Prefere entender tudo como uma grande jogada política dos chineses para embarreirar o crescimento de outros países, sobretudo o dele.
A notícia de que haverá um discurso ambíguo sobre o Acordo de Paris na reunião dos poderosos que vai acontecer, este ano, na Argentina, foi publicada no site Climate Home News pelo jornalista Karl Mathiesen, que teve acesso a uma das versões finais do comunicado conjunto que os países farão no final do encontro. O jornalista alerta para o fato de que sempre haverá a possibilidade de que o texto seja mudado, mas até agora, o rascunho não faz menção ao alerta que os cientistas do IPCC fizeram, no mês passado, dando conta de que estamos já sem tempo. Se o mundo continuar a aquecer nos níveis atuais, as temperaturas globais devem aumentar 1.5º daqui a 12 anos, ou seja, em 2030.
Uma declaração do organizador do encontro e veterano do G20, Pedro Villagra Delgado à mídia no início deste mês, corrobora a impressão de que as mudanças climáticas não terão assento, pelo menos não em lugar de destaque, na reunião dos líderes. Segundo Delgado, a inserção do Acordo de Paris no texto final estava sendo a parte mais complicada do comunicado. A solução vai ser o velho e bom jeitinho de sair pela tangente.
“É claro que queremos que o Acordo de Paris seja mencionado, mas queremos que seja mencionado, abrangendo todos, embora de maneira ambígua”, disse ele.
Diferentemente das recentes declarações do G20 sobre o Acordo de Paris, em que os países se diziam concordar com planos de ação para acelerar as transições globais para uma economia de baixo carbono, agora o texto convida a refletir sobre “outras circunstâncias”. Acena, inclusive, para entender os países que defendem as indústrias de carvão, reconhecendo que as escolhas são variadas e que há muitos caminhos a seguir. Uma clara menção às declarações de Trump, já que o presidente anda denunciando uma espécie de ditadura do conhecimento científico, sem reconhecer os estudos como verdadeiros.
“Os Estados Unidos não dizem que nada deve ser feito [sobre a mudança climática], mas que eles não querem ter nem as obrigações nem as metas impostas pelo Acordo de Paris. Quanto mais afirmativas forem feitas, maior a probabilidade de os Estados Unidos ficarem longe disso”, disse Delgado à imprensa.
E um dia depois de os holofotes sobre o G20 serem desligados, começará a reunião sobre o clima propriamente dito, a COP-24, que este ano vai acontecer em Katowice, cidade da Polônia, de 3 a 14 de dezembro. Vai ser a reunião mais importante desde que o Acordo de Paris foi fechado. E já nasce com um imbróglio sério: o ministro da Energia daquele país saiu em defesa do uso do carvão, que gera 78% da energia na Polônia. Num email conciso, em resposta, o porta-voz da COP24, que faz parte do ministério, disse que a posição do ministro não representa a posição oficial do governo. Mais saia justa, impossível.
O pano de fundo de todas as discussões acaba sendo um só: a eterna luta entre pessoas que querem a preservação do meio ambiente visando a um futuro com mais qualidade de vida para os humanos e as pessoas que visam ao desenvolvimento agora, já, e a qualquer custo. É este, exatamente, o ponto a que se refere o ministro polonês, para quem a luta contra a mudança climática deve “preservar a competitividade das economias nacionais e sua soberania na formação de misturas energéticas”.
A diversificação de fontes de energia é possível, mas é preciso esforço conjunto para isso. E será preciso, também, rever políticas econômicas, o que vai acabar distribuindo mais em vez de concentrar os ganhos nas mãos de poucos. A proposta é um exercício de mudança de paradigma. O mais interessante é que esta proposta é muito bem aceita pela maioria dos cidadãos comuns, pessoas que não estão sentadas nas cadeiras do poder mas que sentem na pele os efeitos das mudanças climáticas. Uma pesquisa encomendada pelo Greenpeace Polônia no ano passado mostrou que 74% das pessoas eram a favor de mudar a fonte de energia do país.
É claro que isso exige esforço, muito trabalho e organização até para não criar um caos, desemprego generalizado com o fim das usinas. É para isso que se elegem os governantes.
Amélia Gonzalez
Arte/G1

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