Cientistas alertam: é preciso reduzir o uso de carnes na dieta


Barcos no lago Poopo, na Bolívia, região afetada pelas mudanças climáticas
Reuters/David Mercado
Um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) não é apenas um conjunto de dados frios que vêm sendo publicados periodicamente para alertar o mundo sobre os efeitos do aquecimento global. Mais do que isso, a publicação deste estudo, feito por cientistas que trabalham voluntariamente, consegue inaugurar uma espécie de onda de reflexões a respeito do clima, o que é sempre muito bem-vindo. Instituições e pessoas físicas que ainda resistem a conectar o plano de desenvolvimento sob o qual estamos imersos aos eventos extremos que têm causado mortes e danos materiais, sempre que o IPCC lança seu relatório, começam a coçar a cabeça e a perceber que algo precisa ser feito, de verdade.
Começamos a semana com o lançamento do último relatório do IPCC que, infelizmente, aqui no Brasil, teve uma repercussão abaixo do que eu esperava. Entende-se: estamos imersos em outras reflexões, vivendo um clima eleitoral que já tem esquentado as discussões.
Mas, mundo afora, os estudos dos cientistas foram parar, por exemplo, na mesa de reunião da União Nacional dos Agricultores da Grã-Bretanha. Responsável por pelo menos 20% das emissões de carbono, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), a agricultura agora percebe que ela também pode ser impactada. As safras deste ano no Reino Unido foram severamente atingidas pelo frio mais severo e a pior seca do verão desde 1976.
Assim sendo, e diante da situação iminente de que os consumidores passem a diminuir o uso da carne vermelha (vou falar mais abaixo sobre isto), a ideia dos agricultores é de se organizarem para lançar mão de tecnologias que possibilitem a redução da pegada de carbono da agricultura. Criariam uma espécie de “vaca diet”. Mais parece aquele aluno que não fez os deveres nem estudou o ano todo e, no dia anterior à prova, corre para tentar recuperar tudo em 24 horas.
Bem, mas segundo o “The Guardian”, entre as possíveis correções tecnológicas mencionadas pelos agricultores, estão os maiores usos de satélites e robótica para aumentar a quantidade de matéria orgânica absorvente de carbono no solo e, assim, ajudar a criar novos rebanhos que emitem menos metano.
É incrível imaginar isso mas, sim, há vacas cujos gases que emitem são menos perigosos do que outras. Se as vacas que – desculpem o termo, leitores, mas não me resta outro – soltam puns menos letais forem criadas umas com as outras, acreditam os agricultores, o problema estaria resolvido. Pesquisadores de outros países também estão ajudando, segundo ainda a reportagem do jornal britânico. Eles estariam criando uma ração diferente para dar menos gases no gado.
De novo: tais iniciativas podem ser consideradas por ambientalistas mais radicais como “mudar para continuar tudo do jeito que está”. O problema é maior do que os metanos produzidos pelas vacas, e é só dedicar um tempo maior na leitura do relatório para se perceber isto.
O vice-presidente na União dos Agricultores, Guy Smith, está se adiantando ao Relatório do Uso da Terra que vai ser lançado no ano que vem pelo IPCC, e que poderá trazer notícias mais preocupantes para os cidadãos comuns e para o setor que ele ajuda a organizar. Mas não, ele não quer saber de reduzir terras produtivas na Grã-Bretanha e usa, para isso, o exemplo do Brasil e da Argentina, “onde as safras e a carne bovina são produzidas em condições bem mais destrutivas do ponto de vista ambiental, o que leva a uma pegada de carbono muito maior”.
Desta forma, deixou de focar no tema principal do relatório do IPCC deste ano, que imprime uma urgência em mudanças radicais na produção e no consumo.
Pensando, de fato, em propor mudanças, outra equipe de pesquisadores se dedicou a estudar o consumo da carne pelos cidadãos comuns e divulgou o resultado de seu relatório na revista “Nature”. Sob o animador título: “Opções para manter o sistema alimentar dentro dos limites do meio ambiente”, mais de 20 estudiosos se debruçaram sobre dados e concluíram, de cara, que o consumo de carne bovina precisa cair 90% e ser substituído por mais grãos e leguminosas.
“Alimentar uma população mundial de 10 bilhões de pessoas é possível, mas apenas se mudarmos a maneira como comemos e a maneira como produzimos alimentos”. As opções são duas, segundo disse o professor Johan Rockström, do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre o Impacto Climático na Alemanha, que fez parte da equipe de pesquisa, à reportagem do “The Guardian”: “Esverdear o setor de alimentos ou comer o nosso planeta.”
Rockström ficou verdadeiramente impactado com o resultado dos estudos dos quais participou e que apontam para uma necessidade de que as pessoas – aquelas que estão foram dos 860 milhões de famintos do mundo, é preciso dizer – mudem completamente suas dietas básicas. Saem carnes e ovos, entram outros produtos que causam menos impacto ao meio ambiente. E ele também acredita que soluções tecnológicas mágicas (como imagina Guy, da agricultura do Reino Unido) não vão resolver o problema.
Já que nosso país foi citado, sinto-me à vontade para sugerir que entrem em contato com o Atlas do Agronegócio feito por estudiosos de duas Fundações internacionais (a Heinrich Boll e a Rosa Luxemburgo) e lançado aqui no Brasil há um mês. Além de terem levantando sérias questões sobre o uso abusivo e pouco respeitoso das terras para plantar alimentos, eles também levantam alternativas bem viáveis, longe da necessidade de se empregar mais dinheiro em máquinas, que podem ajudar na questão.
De quebra, levaram Bela Gil para o debate no dia do lançamento do Atlas. E a chef de cozinha, como sabemos nós, que acompanhamos sua produção em livros e na televisão, sabe indicar alternativas bem viáveis para o uso da carne no dia a dia. Vai dar mais trabalho, porque sair do hábito exige sempre mais energia. Mas também há de ser mais saudável e prazeroso. Mundo afora há outras pessoas dedicadas a tornar menos impactante nosso ato de comer.
Como eu disse no início deste texto, os relatórios do IPCC são sempre bem-vindos porque provocam uma boa tsunami de debates e reflexões. Pena que o Brasil está em dias de se dedicar a outros pensamentos. Mas não seria demais sonhar com a possibilidade de que este tema, tão crucial para a sobrevivência da humanidade no planeta, estivesse à frente. Que se cobrasse dos candidatos a ocupar a cadeira de presidente nos próximos quatro anos um plano vigoroso para encabeçarmos – eu disse que era sonho – uma mudança radical em hábitos de produção e consumo que pudesse vir a ser exemplo mundial, seguido por várias nações.
Sonhar não custa nada. Um bom feriado a todos.

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