Carnaval na rua, entre o protesto, a manifestação política e a brincadeira


A bateria vai terminando de tocar, ouve-se o gran finale com o toque conjunto de todos os instrumentos, um som bonito, forte, de arrepiar até os que menos gostam de carnaval. O burburinho das pessoas continua, ainda se ouve alguns gritos, uns que insistem em cantar. O carro de som abre para músicas gravadas. Aos poucos, nem isso se ouve mais. O veículo se desloca e a rua vai se esvaziando pouco a pouco, restando ali os mais bêbados, casais que se formaram… Alguns felizes, outros tentando ficar à base do álcool, que entra quase como protagonista da festa. As fantasias, as produções tão esmeradas, já estão menos atraentes, precisando de uns cuidados especiais para aguentar o dia seguinte, quando vai ter mais bloco. E mais um, e mais um…
A rua, o patrimônio que é de todos, vai desvelando as agressões que sofreu nas poucas horas que se passaram de tanta folia. Ainda bem que se inventou a moda de cobrir os gramados com redes. Porque, nos poucos pedaços que ficaram de fora, o estrago foi feito. Apesar de os banheiros químicos terem sido instalados como deve ser, o cheiro de urina exala de cada buraquinho entre as pedras portuguesas. E purpurina, e confete, e serpentina… Haja vassoura, jatos de água, para tentar fazer o lugar voltar ao que era antes. Se nada foi quebrado, que sorte!
Sentados no banco da praça, alguns moradores do lugar tranquilo que recebe blocos em quantidade, revelam desânimo para o carnaval de rua, este fenômeno que a cada ano vai ficando mais e mais intenso. Alguns saudosistas insistem em dizer que está tudo muito ruim, que não dá mais para chamar de carnaval: é algazarra! Outros defendem a festa porque é democrática, dá chance a todos se divertirem e fazerem protestos políticos. Nove entre dez letras de música de blocos trazem queixas, reivindicações, denúncias. Tem sido assim nos últimos anos, não será diferente agora, com o país, o mundo, tão polarizado.
Na mesa de esquina do bar do largo encontro José Paulo Pessoa, personagem certeiro para me ajudar a refletir a respeito. Hoje ele faz parte da diretoria do Bloco das Carmelitas, um dos que arrasta uma turma boa em seus desfiles, sempre aos domingos e às terças-feiras de carnaval. Mas Zé já foi um Asdrúbal, do grupo de teatro “Asdrúbal trouxe o trombone”, e a vida toda vem enriquecendo seu tempo entre tamborins, surdos, repiniques. Em 1976 ele já estava pondo seu bloco na rua, ali no Xororó (“Vai subindo pra Santa Teresa, passa os Bombeiros, o Ceat, fica numa pracinha antes da caixa d`água”), onde se encontrava duas vezes por semana com amigos que, como ele, adoram a batida do samba.
Sento-me para acompanhá-lo num chopp e a conversa vai girando solta. Zé Paulo desfia da memória boas lembranças sobre o carnaval de rua e lamenta que, hoje, tenha virado espaço de manifestação política quase obrigatório.
“Chegamos a um nível de horror político tão grande que qualquer espaço é espaço para protestar. Mas eu quero liberdade para a fantasia, o carnaval está ficando chato assim. Os blocos todos são politicamente corretos, de esquerda, precisam falar sobre Queiroz, fascismo… E vira manifestação. É isso mesmo que tem que ser? Além do que, é ilusão achar que isso é ativismo político. Enquanto as pessoas estão na rua berrando contra o governo, os governantes estão fazendo o que bem entendem. Ativismo político, de verdade, para mim, é outra coisa. Carnaval de rua é fantasia, é farra. É ver um pobretão aos beijos com uma bacana do Leblon e depois cada um ir para o seu lado”, disse ele.
Zé Paulo
Arquivo Pessoal
Mas foi para sair de uma situação de opressão que o regime militar impunha que o carnaval de rua começou a pegar, segundo Zé.
“Era tudo tão reprimido que precisávamos gritar, sambar, ser alegre, beber. Era mais ou menos assim: bar de esquina, tamborim, e a gente já queria fazer um bloquinho. Mas o que se queria era fazer samba”, disse Zé Paulo.
O Xororó começou dessa forma mesmo: alguém puxou uma caixa de fósforo na mesa de bar e surgiu a ideia de ampliar. Recolheram dinheiro, Zé foi escalado para comprar os instrumentos ali na Rua da Carioca:
“O que arrecadamos não dava nem para uma peça!” disse ele, numa gargalhada.
Alguém conhecia alguém, que conhecia alguém da Portela, e lá foi o grupo ao almoxarifado da escola para pegar uns instrumentos velhos que estavam para doação. E o bloco durou dez anos, fez um baita sucesso. Tanto que em 1982 chegou a animar a parada inaugural do Circo Voador no Arpoador e na Lapa – a Surprendamental. Depois disso, Zé Paulo tocou em vários lugares e no Bloco da comunidade do Guararapes. Naquele tempo – ah, naquele tempo! – os blocos eram menores, não arrastavam multidões.
“Os blocos desfilavam na avenida, eram mini-escolas, com enredo, fantasia, até carro. Tinha o Canário das Laranjeiras, o Vila Kennedy… o Charme da Simpatia, um bloco super anárquico… quase um movimento cultural. ”
Hoje o processo é mais sério, tem muito mais gente envolvida, mais dinheiro também. Tem o Bola Preta, que arrasta um milhão de pessoas pelas ruas do Centro do Rio para brincar o carnaval. Será que se consegue brincar no meio de uma multidão dessas?
“Olha, carnaval de rua é festa democrática, é de graça. O folião ou a foliona pode sair de casa com a passagem do Metrô e dez reais na carteira, que está tudo certo. As meninas botam aquele negocinho imitando coelho na cabeça, um short, e se divertem. Já para a classe um pouco mais abastada, pular no Bola é o seguinte: chama uns amigos, fica na esquina tomando uma cerveja e observando o movimento. De vez em quando até ouve o som do bloco”, conta Zé Paulo.
A conversa vai chegando ao fim, Zé Paulo tem que se preparar para animar o Carmelitas. No desfile, ele fica no alto do carro de som, cantando o samba. Este ano, está chateado porque inscreveu seu próprio samba e não ganhou. Acha que foi roubado porque não a letra destoava das demais e não falava em Queiroz, Bolsonaro, fascismo…
“Minha letra fala de liberdade de crença. Digo assim: ‘Xô clausura, bota fé na tua crença: a torto e à direita, é bom repetir de novo, a praça sempre será do povo’.”
Vida que segue. Como bom folião, com certeza Zé Paulo estará cantando “o outro samba”, quando chegar a hora, com a mesma animação. Mas, bom mesmo, é quando ele conseguia, do alto do carro, distinguir pessoas, fantasias, ver gente se beijando. Hoje, tudo o que vê é uma massa de pessoas. E percebe uma contradição
“O carnaval de rua, hoje, é quem traz turistas para o Rio. Mas a cidade fica feia, suja, isto é um paradoxo. Os gramados da orla ficam horríveis com aquelas redes que eles põem para evitar depredação. Fazer o quê?”
Amélia Gonzalez
Arte/G1

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