Brasil precisa retomar a proteção ambiental e destravar Fundo Amazônia, dizem especialistas na COP

Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima, diz que o Brasil não é o foco de verba de US$ 100 bilhões prometida em 2009 por países ricos e que ainda não está disponível. Pesquisadores brasileiros que participam como observadores da COP 25, na Espanha, criticam o foco do Brasil na conferência que debate estratégias contra a emergência climática. Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima, e André Guimarães, diretor do IPAM, dizem que faltam propostas e compromissos para frear o desmatamento no Amazônia, que seria a contribuição mais imediata do Brasil para enfrentar o problema.
Além disso, eles criticam as cobranças do ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles por recursos que, na visão dos especialistas, não estão disponíveis e não são devidos especificamente ao Brasil.
Durante sua participação no evento, Salles defendeu que o governo Bolsonaro está fortemente comprometido” em combater as mudanças climáticas e também cobrou a implementação do fundo de US$ 100 bilhões (leia mais abaixo). Sobre as críticas dos observadores na COP, a TV Globo entrou em contato com a assessoria de Salles e, até a última atualização desta reportagem, não obteve resposta.
O secretário-executivo do Observatório do Clima lembra que, em 2015, quando o Brasil assumiu suas metas que depois foram incorporadas ao Acordo de Paris, ele não condicionou a execução de ações para redução de emissões à existência de recursos externos.
O pesquisador explica que, de fato, 100 bilhões de dólares foram prometidos no compromisso firmado em 2009, mas que essa verba não está disponível e que a previsão é que ela seja direcionada para países ainda mais pobres que o Brasil.
“O ministro Ricardo Salles veio aqui para a COP dizendo que iria cobrar, inclusive, 10% desses 100 bilhões, isso é completamente fora da realidade porque esse é um recurso que é principalmente para apoiar países pobres, que não têm meios de se desenvolver, de promover a inclusão, a redução de pobreza com redução de emissões e ao mesmo tempo de lidar com os eventos da mudança climática que são cada vez mais frequentes e intensos.”
André Guimarães, do Ipam, afirma que “proteger a amazônia é um desafio técnico, logístico e principalmente é um desafio político e financeiro”. Ele diz que 2019 marcou um redução “muito grande” nas políticas contra o desmatamento e também houve redução dos investimentos.
“Precisa de dinheiro? Precisa. Neste sentido o governo e o próprio ministro Salles tem dito que precisa de dinheiro e etc, mas existe dinheiro disponível, o Fundo Amazônia é um bom exemplo. Existe quase meio bilhão de dólares disponível e precisa ser destravado esse processo.” – André Guimarães, Ipam
Diretor do Ipam cobra retomada de políticas ambientais e uso do Fundo Amazônia
Salles na COP 25
Durante a sua participação na plenária da conferência da ONU, na terça-feira (10), o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou que o Brasil está “fortemente comprometido” em combater as mudanças climáticas. Ele destacou ações de governos anteriores, como a adoção do Código Florestal e a expansão dos biocombustíveis, além de valorizar a matriz energética brasileira, composta em 84% por energias renováveis.
O ministro também pressionou os países ricos a acelerarem a implementação de um fundo de US$ 100 bilhões para os países em desenvolvimento poderem adotar mais medidas de adaptação e mitigação das mudanças climáticas.
“Temos que ir além de belas palavras e providenciar os recursos que podem efetivamente responder às necessidades dos países em desenvolvimento”, disse Salles. “É tempo de ação. Finalizar o Artigo 6 [do Acordo de Paris] é um passo crucial para demonstrar os nossos compromissos.”
Tanto no ano passado como neste, o Brasil desistiu de sediar Conferência do Clima da ONU devido a restrições orçamentárias. Na transição do governo de Michel Temer para Jair Bolsonaro, o atual presidente disse ter recomendado que o encontro não fosse realizado no país, pois “custaria mais de R$ 500 milhões ao Brasil”.
A COP 25 e o futuro do meio ambiente

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