Anúncio de Natal sobre abuso na extração do óleo de palma é proibido na Islândia


Um anúncio de Natal que chama a atenção para a morte, em massa, de orangotangos das florestas da Malásia e da Indonésia por causa do abuso sobre a planta produtora do óleo de palma, foi proibido de ser veiculado na Islândia, terceiro país mais rico e desenvolvido do mundo. O anúncio, feito pelo Greenpeace, mostra uma criança, em seu quarto, sendo visitada por um orangotango bebê. Ele mexe nas coisas dela, faz uma bagunça danada, assusta a menina. Está a ponto de destruir tudo quando ela resolve expulsá-lo. Mas, antes, pede que lhe conte o que ele faz ali.
“Tem um ser humano na minha casa que está destruindo tudo que é meu, matou minha mãe e eu tenho medo que me mate também”, explica o animal enquanto imagens de desmatamento e incêndio em florestas vão surgindo na tela.
A criança então decide se tornar amiga do bicho e criar cartazes exigindo que a humanidade salve os orangotangos. Em média, 25 por dia são mortos na corrida avassaladora da indústria por óleo de palma. Trata-se de um produto que é usado em mais de 50% dos produtos comprados, por exemplo, nos supermercados do Reino Unido.
Shampoos, pasta de dente, detergente e chocolates têm óleo de palma em suas fabricações. Algumas marcas famosas, pressionadas por uma campanha do Greenpeace em 2014, se comprometeram publicamente a eliminar o desmatamento, usando apenas óleo de palma com procedência garantida. Já existe uma variação do óleo de palma que pode contribuir para conter o desmatamento de florestas tropicais, mas é preciso investir em pesquisa para fazer funcionar.
O que impressiona também, neste caso específico da proibição do anúncio na Islândia, é a recorrente pressão no sentido de manter o cidadão comum sem conhecimento sobre o que consome e o que poderia ajudar a consumir menos. Neste caso, a Clearcast, agência de publicidade responsável pela análise dos anúncios antes de serem transmitidos ao público, disse que foram violadas as regras que proíbem a propaganda política estabelecidas pela Lei de Comunicações do país.
A falta de ações que, verdadeiramente, possam contribuir para mudar o paradigma atual de produção e consumo a fim de melhorar a qualidade de vida desta e das outras gerações é que vai deixando falhas estruturais na confiança dos cidadãos. Há pouco mais de um mês, o Painel de cientistas das Nações Unidas que se encarrega de divulgar relatórios sobre o clima, o IPCC , veio a público dizer que se os desmatamentos e o uso abusivo de combustíveis fósseis continuarem, o planeta vai aquecer além dos 1,5 graus mantidos como meta no Acordo de Paris. A situação, especificamente das florestas, é tão dramática que o órgão das Nações Unidas está preparando um relatório sobre Mudança Climática e Terra, que será lançado ano que vem.
Enquanto isso, porém, pouco se avança em decisões – não só do poder público como do mundo corporativo – que possam, efetivamente, diminuir o desgaste das florestas. E, quando uma organização da sociedade civil toma para si o dever de informar aos cidadãos, a providência imediata é proibir o anúncio.
“Ao invés de proteger o público de mensagens políticas insidiosas, a Clearcast impediu que uma mensagem crucial fosse transmitida para milhões de telespectadores, muitos dos quais compram produtos contendo óleo de palma sem saber a devastação que está causando aos animais e o aquecimento global. Proteger e restaurar florestas atingiria 18% das mitigações de emissões necessárias até 2030 para evitar mudanças climáticas irreversíveis, disse um grupo de 40 cientistas no mês passado”, comenta Jessica Brown, jornalista do “The Guardian”.
Uma avaliação recentemente publicada pelo Greenpeace mostra que 25 grupos de óleo de palma eliminaram mais de 130.000 hectares de floresta tropical desde o final de 2015 e que 40% do desmatamento (51.600 ha) foi em Papua, na Indonésia – uma das regiões mais biodiversas do planeta e até recentemente não atingida pela indústria de óleo de palma. Com isso, metade da população de orangotangos de Bornéu foi exterminada em apenas 16 anos.
Num mundo em que uma marcha dramática de pessoas, envolvendo milhares de crianças, segue em caravana pelas estradas, rompendo um caminho de quase dois mil quilômetros em busca de uma vida melhor, pode parecer mesmo fora de propósito a preocupação com orangotangos na Indonésia. A questão é que tudo está interligado, e é o que se chama de desenvolvimento sustentável, já que a maioria dos que estão nesta marcha está fugindo de desemprego, da pobreza, e o papel das grandes corporações que utilizam bens naturais como se fossem inesgotáveis tem sido também recorrentemente posto em xeque na hora da distribuição desta riqueza.
“Embora a mudança fundamental deva acontecer em um nível político, as empresas também desempenham um papel enorme na promulgação de mudanças estruturais e sociais”, lembra Jessica Brown.
Amélia Gonzalez
Arte/G1

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