Milhares protestam contra prisão de opositor de Putin na Rússia


Atos ocorrem em várias cidades Milhares de russos enfrentaram temperaturas congelantes e foram às ruas neste sábado para protestar contra a prisão de Alexei Navalni, líder opositor do presidente Vladimir Putin

Segundo organizadores e da mídia regional, os atos atingiram dezenas de grandes cidades várias regiões russas. Em Moscou, agências de notícias estimam 40 mil manifestantes, embora não haja contagem oficial.

Como eles não tinham autorização para acontecer, foram dispersados pela polícia com maior ou menor violência -até as 19h (13h em Brasília), havia mais de 1.900 presos, segundo a ONG de direitos humanos OVD-Info.

O prefeito de Moscou, Serguei Sobianin, disse que os atos são inaceitáveis em meio à segunda onda da pandemia da covid-19, que tem na Rússia o quarto país do mundo em casos, com 3,6 milhões de infectados e 70 mil mortos.

Vídeos mostraram policiais da temida Omon, a tropa de choque russa, prendendo um garoto de 14 anos que concedia tranquilamente uma entrevista na praça Púchkin, tradicional ponto de encontro no centro moscovita. O grupo começou a marchar pela capital, e a noiva de Navalni, Iulia, foi uma das detidas.

Houve choques pontuais com a polícia na capital e também em São Petersburgo, segunda maior cidade do país. Manifestantes foram feridos. A agência RIA Novosti contou 40 policiais feridos em Moscou.

Por causa dos 11 fusos do maior país do mundo, um aperitivo da onda de protestos começou a ser visto primeiro em Vladivostok, no extremo oriente russo, onde houve drepressão da polícia.

Vindo para o oeste, em Khabarovsk (Sibéria), cidade que convive com protestos contra o Kremlin desde 2020 devido à remoção do governador local, cerca de 2.000 pessoas foram dispersadas por tropas de choque.

Tudo isso em meio a um rigoroso inverno na Rússia vive um duro inverno. Em Iakutsk, conhecida pelo apelido de cidade mais fria do mundo, pessoas foram detidas sob uma temperatura de 52 graus Celsius negativos.

O mesmo se viu em lugares como Iekaterinburgo (Urais, centro do país), onde 10 mil pessoas protestaram com 30 graus Celsius negativos. Em Ufa, também nos Urais, manifestantes enfrentaram a polícia com bolas de neve.

Houve repressão, assim como em Novosibirsk, Tcheliabinsk e Krasnoiarsk, cidades siberianas. Em Irkustk (Sibéria), a praça central ficou cheia, mas foi esvaziada sem violência.

O protesto é um alerta para o Kremlin. Navalni voltou ao país no domingo passado (17), 150 dias depois de ser envenenado na cidade siberiana de Tomsk, onde ajudava a fazer dossiês contra o líder local do partido do Kremlin que disputaria as eleições de setembro. Lá, aliás, 2.000 pessoas protestaram neste sábado.

Ele foi tratado em Berlim, onde os médicos afirmaram ter encontrado o famoso veneno dos serviços secretos russos Novitchok (novato) em seu corpo.

Navalni acusou diretamente Putin e, depois, divulgou a gravação de um trote que deu em um dos agentes do FSB (Serviço Federal de Segurança) apontados como autores do ataque -nele, o espião acha que fala com um superior e admite ter colocado veneno na cueca do ativista no quarto de hotel.

O Kremlin nega qualquer envolvimento, e Putin brincou no fim do ano que, se a Rússia quisesse matar Navalni, o teria feito.

Apesar do desprezo, o Kremlin não titubeou em ver Navalni detido assim que chegou ao controle de passaporte em Moscou -não antes de ter seu voo desviado para outro aeroporto, para evitar confusão com apoiadores.

Ele é acusado formalmente de violar os termos de sua liberdade condicional -teve uma sentença de prisão por fraude comutada em 2014, algo que ele chama de perseguição judicial. Embora nominalmente independente, o Judiciário russo é usualmente alinhado ao Kremlin.

Navalni pode agora pegar 3,5 anos de cadeia, e convocou o protesto para este sábado. É uma tática arriscada, dado que ele não é uma figura popular na Rússia.

Pesquisa do Centro Levada, instituto independente de opinião pública, mostrou que em novembro apenas 2% dos russos votariam em Navalni para presidente, e só 4% apoiavam sua causa.

A exemplo de outros opositores de Putin ao longo dos anos, como o enxadrista Garry Kasparov, sua imagem é mais polida no Ocidente do que em seu próprio país.

Protesto contra prisão de Alexei Navalny em São Petersburg, Rússia
AP Photo/Dmitri Lovetsky

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