J&J tenta empurrar vacinas descongeladas para a América Latina pelo Covax, diz diretor da Opas


Alguns países poderiam não conseguir distribuir os imunizantes antes do vencimento A Johnson & Johnson pressionou a América Latina a aceitar vacinas contra a covid-19 descongeladas, o que poderia fazer com que alguns países não conseguissem distribuí-las antes do vencimento. O pedido da empresa foi revelado por Jarbas Barbosa, diretor-assistente da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) ao jornal “Financial Times”.

A Opas é o escritório regional da Organização Mundial de Saúde (OMS) para as Américas e lidera as negociações com a J&J para a entrega de vacinas por meio do Covax, o consórcio internacional que tenta garantir uma distribuição mais igualitária dos imunizantes entre os países.
Segundo Barbosa, a J&J estava pedindo que as doses fossem enviadas em temperatura de geladeira, em vez de congeladas, como exige a OMS. A autorização de uso emergencial para a vacina da J&J estipula que as doses devem ser entregues entre -25ºC e -15ºC, temperatura em que a vida útil é de dois anos. Depois de descongelados, os imunizantes devem ser utilizados em até três meses.

Mary Altaffer/AP Photo
“Todo mundo quer chegar a um acordo o mais rápido possível, mas não podemos aceitar vacinas que os países não terão tempo de usar”, disse Barbosa ao “FT”. “Em certas circunstâncias, você pode aceitar 10% ou 15% da remessa com uma vida útil mais curta. Mas nossa recomendação é que os países só devem aceitar a -20ºC.”
Barbosa disse que a J&J foi agressiva nas negociações e sugeriu que a empresa estava tentando se livrar de doses que não poderiam ser usadas de outra forma. “Talvez eles tenham vacinas que já foram descongeladas e queiram entregá-las pelo Covax”, afirmou.

Procurada pelo “FT”, a J&J não respondeu perguntas específicas sobre as negociações com a Opas. Em comunicado, a empresa disse que se comprometeu a distribuir 500 milhões de doses para os países mais pobres e que sua vacina, de dose única e facilmente transportável, pode ser uma ferramenta importante na luta contra a covid-19.
Barbosa afirmou que a Opas continua negociando com a J&J e que espera resolver a questão antes da próxima semana. Sob o princípio de acordo assinado pela empresa e a OMS, 200 milhões de doses devem ser entregues à Covax para distribuição no segundo semestre deste ano.
Segundo o diretor da Opas, as negociações com as farmacêuticas têm sido desafiadoras. As companhias estão exigindo proteções no caso do surgimento de efeitos colaterais imprevistos e não concordam com punições se houver atrasos na produção. “As empresas estão pedindo coisas que, em tempos normais, seriam inaceitáveis”, disse ele na entrevista ao “FT”.

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